Filosofia/Sociedade

A fragilidade do relativismo

Certa vez, assistindo a uma conferência de um sociólogo ouvi que a ciência nada mais fazia se não classificar as coisas. Coloquei-me a pensar sobre quão equivocado poderia ser tal pensamento. O que dizer do contexto da descoberta e do contexto da justificação? O que dizer, do ponto de vista do realismo científico, sobre os avanços do conhecimento que se pronunciam em nosso cotidiano? Certamente que classificar é necessário para produzir pontos de partida, mas resumir a atividade científica a tal prática é um disparate sem igual. Não é novidade que relativistas ou céticos defendam pontos de vista semelhantes. Quando se faz necessário invocar referências para subsidiar a discussão, frequentemente, ouvimos nomes como T. Kuhn, ou T. Adorno. E quando se trata de uma discussão envolvendo alguém com formação em humanidades é comum a defesa de um projeto marxista.

Um projeto marxista não compreende um projeto ao qual K. Marx tenha dado início, ou pelo menos não ao selo. O selo marxista foi criado por pessoas que defendiam pensamentos adjacentes aos de Marx. Aqui faço referência a um projeto marxista como sendo uma defesa saudosista da velha agenda socialista que não deu certo. Portanto, o rótulo do marxismo está presente sem que haja condições para que o projeto se desenvolva. É preciso compreender que Marx não inventou o marxismo. Quanto a Kuhn, seu trabalho aponta muito mais na direção de mostrar como os paradigmas da ciência mudam ao longo do tempo. Portanto, nada tem a ver com o relativismo muitas vezes empregado.

Outro ponto controverso que desejo enfatizar é a defesa, por parte de alguns sociólogos, – e de outros estudiosos também – de que há uma tendência para a mudança de concepções, de modo que quando se é estudante o indivíduo defende uma agenda não condizente com a agenda defendida pelo mesmo quando este for professor, por exemplo. Este me parece um pensamento demasiado simples. Se não vejamos, um ponto que fica de fora desta análise é o fato de que nem todos os indivíduos têm acesso à universidade. Assim, a maior parcela da população não está dentro das universidades, mas, a despeito do que geralmente é apresentado, o argumento não termina assim. Esquece-se que, também é fato que todos os indivíduos dentro das universidades estão fora dela e assim são uma amostra representativa da sociedade.

Este raciocínio serve a um propósito. Mostrar que o estudante universitário apesar de viver em um nicho restrito que é a universidade, não se torna, por isso, ausente da vida social fora dos muros deste nicho. O outro ponto importante é que há uma realidade independente do indivíduo. Sem dúvidas podemos interferir na forma como se dá a realidade e, de fato, é isto que fazemos. Contudo, para ser responsáveis, não há duas realidades. Há duas ou mais acepções desta realidade, ou seja, existem formas particulares de compreender a realidade objetiva. E isto significa que nossas mudanças de concepção e a defesa de projetos diferentes dos que defendemos hoje não é fruto de duas realidades, mas sim fruto de uma maturidade responsável por nos tornar aptos a apreender a realidade de uma forma que nos parece mais esclarecedora do que antes. Certamente que, a rigor, a coisa não se dá desta maneira.

Talvez a defesa de projetos diferentes dos que um dia defendemos seja o reflexo de nossa avidez em obter vantagens como a fama por defender o que está em voga ou mesmo a mera vantagem financeira. Existem entendimentos mais aprofundados a cerca deste assunto nas discussões epistemológicas, mas seja na leitura de Kant de que a verdade é o ajustamento do conhecimento ao objeto, seja no entendimento de que se trata da eficácia ou validade dos procedimentos cognoscitivos, é preciso assumir que há uma realidade e diferentes formas de acessar esta ralidade.

Leitura sugerida:

Kant, Immanuel, 1724-1804. Crítica da razão pura. Matin Claret, 2009.

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Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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