Compreensão pública da ciência

Pergaminhos genéticos

Imagine dois povoados distantes, cada um com seu próprio dialeto. Ainda que não falem a mesma língua os dois povos mantém certas relações de troca. Ao menos um dos dois povoados deve possuir entre seus habitantes alguns capazes de traduzir a língua do outro para que as relações se mantenham. Nesse cenário temos uma população que fala apenas a língua nativa e outra bilíngue. O povoado “A” percebe que o inverno será duro e a colheita prejudicada. Eles devem entrar em contato com o povoado “B” para informá-los uma vez que o povoado B, embora bilíngue, não tem um sistema de predição do clima muito sofisticado.

Os anciãos do povoado “A” tem a informação climática, mas não podem fazer a viagem até o outro lado para levar a informação. Eles são a fonte da informação e, embora vetustos, ainda poderão guardar estas informações por longos anos e passá-las a diante para as próximas gerações. Um dos anciãos profere em discurso a informação enquanto um escriba transcreve seu discurso para um pergaminho. O pergaminho, no entanto, não é composto de um material muito bom, a tinta não fixa por longo tempo e o próprio pergaminho vai se desgastando com o manuseio. Um mensageiro deve levar o pergaminho até o outro povoado, mas ele só poderá se comunicar com alguém que fale a mesma língua.

O trajeto é longo e ele deve ter cuidado para que a informação no seu pergaminho não se perca ou seja extraviada. Após a longa viagem, o mensageiro finalmente chega ao povoado “B” e pode entregar o pergaminho contendo a informação a um tradutor. O habitante bilíngue do povoado “B” traduz a informação contida no pergaminho e agora seu povo pode tomar medidas para se precaver do inverno rigoroso que está por vir.

A estória é uma analogia para ilustrar o percurso da informação genética. Tal como na estória dos povoados, o DNA é uma molécula informacional, é o ancião. Nele está contida a informação para gerar um órgão, a cor dos cabelos, ou um cílio. O DNA é a fonte mais segura para se armazenar a informação. No entanto essa característica tem seu custo. O DNA não pode fazer mais do que armazenar informação. Ele precisa transcrever sua informação para o RNA. O RNA é o pergaminho do povoado e a RNA-polimerase o escriba. Ele não dura muito, é pouco estável, mas está escrito na mesma língua do DNA – a língua dos nucleotídeos. Falamos em transcrição toda vez que uma informação é copiada usando a mesma língua. Os nucleotídeos são as letras do alfabeto do DNA (A, T, C e G) e do RNA (A, U, C e G).

O RNA faz uma longa viagem do núcleo da célula até o citoplasma, onde deverá encontrar um tradutor. O tradutor é um típico habitante do povoado “B” – o Ribossomo. O Ribossomo lê a mensagem do RNA e a traduz para outra língua – a língua dos aminoácidos. Falamos em tradução toda vez que uma informação é copiada usando outra língua. Os aminoácidos são as letras do alfabeto das proteínas.

Resumidamente, dizemos que o DNA é transcrito para RNA e este é traduzido para Proteínas. Há, portanto, uma sequência ordenada de acontecimentos. Um gene, portador de uma informação específica, começa a ser transcrito para um RNA – outra molécula informacional –  que deve ter a capacidade de manter a informação por um curto período até que esta possa ser traduzida para uma outra língua que tenha capacidades que ultrapassem a de armazenamento de informação.

Dados estes acontecimentos, é razoável pensar que o DNA deve ter surgido primeiro, uma vez que é necessário um molde de DNA para transcrever o RNA. Curiosamente, não é bem assim que ocorre. Na história evolutiva das moléculas informacionais, o DNA deve ter surgido após o RNA. Entre as razões para isso figura o fato de que o DNA é extremamente mais complicado de se formar em relação ao RNA. São necessárias muitas proteínas para dar cabo da síntese de DNA. As proteínas, por sua vez, tem imensa variedade de funções se comparadas ao DNA e ao RNA, mas são pobres sistemas para armazenamento de informação. O RNA, por outro lado, compartilha a característica de molécula informacional inerente ao DNA e muitos RNAs tem funções catalíticas inerentes as proteínas.

As capacidades de se copiar, armazenar informação, promover catálise e diversas funções reguladoras (e. g. micro-RNAs) habilitam o RNA a reivindicar seu posto de molécula anciã. A hipótese na qual o RNA surgiu primeiro que o DNA ou as proteínas é conhecida como “O mundo do RNA”.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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