Filosofia

Ensaio sobre a fé

um interessante paralelo entre filosofia, ciência, religião e arte. Segundo o filósofo Johannes Hessen, no que diz respeito ao objeto, a filosofia se apresenta mais  próxima da arte e da religião uma vez que os mesmos enigmas do mundo são postos à poesia, religião e filosofia. Assim, estes três domínios da cultura têm por objeto a totalidade do real. O que os diferencia é a forma de acessar o conhecimento, pois a visão de mundo da arte é oriunda da intuição e vivência, da religião oriunda da fé religiosa e da filosofia é radicada no conhecimento racional. É nesta diferenciação que a filosofia se separa da religião e da arte para se assemelhar à ciência. A fonte da visão de mundo da filosofia e da ciência é o conhecimento racional. Podemos seguramente inferir que a filosofia mantém maior proximidade com a ciência do que com a religião. Por que razão? O fato de que a filosofia objetiva a totalidade do real enquanto a ciência não reivindica mais que parte da realidade como objeto não representa grandes danos a uma argumentação explicativa seja da ciência ou da filosofia, exceto quando consideramos o psicologismo. Por outro lado, a fonte recorrida para explicar algo certamente representa grande importância para a credibilidade da explicação. E neste aspecto, não creio que um filósofo sério algum dia buscou ser mais intuitivo ou religioso que racional. E isto é particularmente importante ao refletirmos sobre a filosofia iluminista na Alemanha, que não conseguiu romper com a instituição religiosa, e na França, onde tal ruptura felizmente ocorreu.

No dizer de Nietzsche, quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de se ser cristão. Por conseguinte, conclui, o maior dos criminosos é o filósofo. Proponho apenas uma substituição do termo cristão por religioso, pois abrange de forma mais ampla as crenças em histórias infundadas. O religioso, o indivíduo que nutre, por opção, alguma crença em divindades ou qualquer teoria de fundo místico sofre de uma carência de curiosidade sobre o mundo. É um ser que não se pergunta sobre a vida, apenas aceita a “confortante” ideia de que deve haver uma explicação sobrenatural para a origem da vida e do universo. Ao que parece, as explicações científicas para a complexidade da vida na terra não são atraentes o suficiente para convencê-los.
O religioso por opção é um indivíduo que conhece a teoria da evolução de Darwin, mas insiste em negá-la para afirmar sua crença. Este tipo de indivíduo se diferencia dos demais por estes últimos haverem sido criados sob forte influência religiosa de seus pais. Uma criança é inocente, e desconhecedora da realidade, o suficiente para nutrir crenças em mitos como papai Noel ou duendes com potes de ouro no fim do arco-íris. Pelo menos até o ponto em que se cresce e obtêm-se informações, boa parte oriundas da experimentação, acerca do mundo real para saber que não podem haver criaturas no fim do arco-íris, uma vez que lhes é ensinado na escola que se trata de um fenômeno óptico, não de uma grande construção colorida erigida no horizonte. Igualmente, facilmente abandonam a crença no homem vetusto que voa em um trenó e lhes traz presentes em dezembro.

Para estas crianças, mais astutas que os próprios pais, não é difícil perceber que no seu mundo não há lugar para uma figura que se apresenta fora de todos os padrões observáveis. Por outro lado, não é com a mesma facilidade que abandonam as crenças religiosas cultivadas pela família. Por que razão? Certamente não encontrarei objeção ao fato de que ninguém é estigmatizado na escola ou qualquer círculo social por assumir que não crê em duendes. Por outro lado, não é com a mesma aceitação que uma família de bases religiosas, seja qual for, admite uma criança que se assuma descrente. Para não precipitarmos o termo ateu.

Outra forma de analisar a crença no infundado, ou fé, é notando que ao crescer e julgar as crenças dignas de serem abandonadas sem prejuízo à sua aceitação em círculos sociais e em sua própria estrutura familiar, uma criança acha seguro não crer em duendes e encontra, no mundo a sua volta, apoio para que não creia em coisas tão tolas. A criança pode, inclusive, rir-se com seus pais destes mitos. Porém quando ela começa a fazer seu julgamento sobre a veracidade de histórias bíblicas ou se perguntar “quem ou o que é Deus?” logo é repreendida e desencorajada a nutrir tais pensamentos. O que é tal atitude se não a defesa de uma crença de criança nutrida por adultos e amplamente aceita.

Em pleno século XXI assistimos, inconformados, a engenharia genética caminhar a passos de tartaruga por problemas éticos que nem de longe encontram justificativa em pressupostos lógicos. Em uma sociedade estruturada como a contemporânea devemos nos perguntar qual a utilidade da instituição religiosa?

Recordo-me de uma conversa, com um amigo da graduação, na qual ele me dissera ter presenciado um milagre em que um homem realizou uma espécie de cirurgia espiritual. Uma retirada de cálculos renais. Lembro-me de minha primeira frase: “realmente, não acredito!”. Meu amigo argumentou então que se alguém lhe tivesse contado, como estava a fazer comigo, ele também não teria acreditado. Mas havia algo de especial. Ninguém lhe contou, ele havia visto com os próprios olhos.

Qualquer pessoa não habituada a presenciar apresentações de ilusionistas, que tomam emprestado um objeto da platéia, põe num pacote, ataca furiosamente o pacote com um martelo e depois faz com que o objeto original reapareça intacto no bolso do próprio dono, ficaria impressionado com a tal cirurgia espiritual. Ninguém  realmente acredita que o ilusionista tenha martelado o objeto verdadeiro, nem o próprio ilusionista quer convencer de que fez algum milagre, mas o tal cirurgião obreiro da história de meu amigo sim. Ele tinha uma forma toda especial de provar que seu milagre era um fato. Convocou duas mulheres da platéia, enfermeiras. Imagino que elas devam ter apresentado seus registros do Conselho Regional de Enfermagem (COREN)! Pediu que as enfermeiras examinassem o cálculo que acabara de ser extraído e confirmassem se era verdadeiramente um cálculo renal. Elas o fizeram e corroboraram o achado do “cirurgião” que contava ainda com exames e declarações do enfermo.

Antes de Copérnico pensava-se que o sol girava em torna da terra e não o contrário. Hoje nos parece tolo que alguém possa ter pensado assim, mas muito me surpreenderia se alguém afirmasse que percebe a terra em movimento, e se realmente percebesse, me apressaria para encontrar um kit anti-terremoto. A observação nos mostra que as 8:00 horas da manhã o sol lança seus raios de luz pela janela do quarto de forma que estes incidem sobre a cama, as 12:00 horas da manhã pode-se observar que a projeção da luz mudou de lugar e a observação da posição do sol em relação a nós parece realmente ter mudado. Seguindo o raciocínio de meu amigo de que devemos acreditar em eventos que podemos ver, o sol é quem gira em torno da terra, pois assim é que percebemos. Hessen, nosso filósofo, explica que o homem é um ser espiritual e sensível. Segundo o filósofo, a fonte do conhecimento espiritual é a razão e do conhecimento sensível é a experiência. Assim, aliamos aquilo que observamos com as explicações que não contrariam a razão. Por isso sabemos que a terra gira em torno do sol e não o contrário.

A argumentação apresentada até aqui objetiva mostrar como parece fácil nos enganarmos a respeito dos fatos observáveis quando não aplicamos os princípios alicerssados na razão. Mas há outro ponto no qual a fé pode ser, inclusive, perniciosa. Me foi relatado o caso de um indivíduo que buscou o serviço de psiquiatria do hospital de referência do estado na vã esperança de que lhe fosse ofertada uma terapia funcional, digna de cinco anos de faculdade de medicina e uns dois de especialização. O resultado foi a prescrição de sessões de terapia espiritual para resolver o problema do paciente. Lembro-me de ter ouvido alguém afirmar que a crença religiosa não interfere na prática profissional. A conclusão deste relato foi a formalização de denúncia da conduta do profissional ao conselho regional de medicina. Infelizmente nem todos adotam a mesma postura e alguns profissionais de saúde continuam a praticar tais atos.

Referências

HESSEN, J. Teoria do conhecimento. 1. ed. 1999.
NIETZSCHE, F. O anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2000.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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