Compreensão pública da ciência/Filosofia

Ensaio sobre o cartesianismo

No presente ensaio desejo falar sobre algumas críticas ao método erigido por René Descartes (1596-1650), o cartesianismo. Ao analisar as críticas observamos, frequentemente, deturpações que, por vezes, passam despercebidas por olhos desatentos. Assim, apresentar as críticas correntes e diferenciá-las quanto à sua legitimidade pode ser útil para a nossa reflexão. Ao ler textos contemporâneos sobre ciência, não raro encontramos críticas corrosivas ao método cartesiano. Entretanto, devemos fazer algumas considerações antes de se lançar em campanha de concordância e reprodução de tais críticas. Iniciaremos por examinar o modo empregado por Descartes para estudar determinado problema. E quem se não o próprio filósofo para nos explicar. Em “Discurso do método” (1637), dispõe os quatro pilares do que atualmente se conhece por cartesianismo.

“O primeiro era nunca admitir alguma coisa como verdadeira sem que a conhecesse evidentemente como tal. O segundo, dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas pudesse e fosse preciso para melhor resolvê-las. O terceiro, conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, supondo até certa ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais, que ficasse certo de nada omitir” (DESCARTES, p.31-32, 2006).

A princípio, parece óbvia a razão pela qual este modo de pensar deva ser recriminado. Afinal, por que razão alguém pensaria em reduzir estruturas complexas como organismos vivos? Há mais que se deva conhecer sobre o método de Descartes. Observamos um conjunto de procedimentos ordenados e supondo certas regras para o estabelecimento de enunciados. Assim, constituindo um método propriamente dito. O professor Gilles-Gaston Granger, especialista em filosofia da ciência e epistemologia, em uma publicação de 1994 intitulada “A ciência e as ciências”, argumenta que as regras cartesianas pertencem, pelo menos no que diz respeito às ciências da empiria, ao contexto de justificação, que está mais relacionado com a validação dos enunciados científicos do que com sua descoberta. De forma que se torna legítimo inferirmos haver uma aplicação mais geral do método de Descartes, sendo então, uma forma de testar enunciados científicos.

Engana-se quem acredita que Descartes não propunha relações entre as partes analisadas. Certamente que nada comparado àquilo que prega a filosofia holística ou ecológica, mas, uma integração suficiente para não intimar o método ao banco dos réus. Se hoje é possível o estudo morfológico dos organismos, é graças à invenção do microscópio. Por que razão o microscópio fora inventado se não para reduzir estruturas e estudá-las em um nível imediatamente abaixo de sua estrutura? Hoje dispomos de um vasto acervo de informações para iniciar qualquer investigação científica e, sem dúvida, as bases teóricas dessas informações foram lançadas a pelo menos dois séculos atrás (posso errar na regressão, talvez sejam as bases bem mais antigas).

Ao iniciar a extensiva investigação de um sistema vivo, muitos princípios são considerados, como homeostase, as noções químicas que governam o metabolismo, a física da hemodinâmica, entre outros. Entretanto, ao observar com olhos atentos veremos que para se chegar ao entendimento de qualquer destes processos foi necessário isolar células, simular reações in vitro, purificar compostos orgânicos, entre outros princípios que não se distanciam do cartesianismo.

O termo reducionismo é carregado de significado positivista e assim parece justificado quando ouvimos alguém dizer que métodos reducionistas merecem pouca credibilidade. Por outro lado, seria extremamente improvável que a biologia chegasse ao patamar que se encontra hoje sem empregar métodos que visassem compreender as estruturas em diferentes níveis de sua organização.

Poder-se-ia ainda dizer que a visão cartesiana não dispõe de uma aceitação ampla por uma questão estético-discursiva. Não se pode permanecer estoico diante de uma suite de Bach bem executada em ambiente com boa acústica. Isto porque a arte que nos mergulha os sentidos num oceano de sensações indescritíveis, consegue atrair nossa atenção e nos emocionar. Não consigo imaginar alguém, mesmo que muito emotivo, derramar lágrimas numa aula de anatomia. E se ocorresse, o protagonista seria, sem dúvidas, o formol.

O modo cartesiano de examinar é seco, insípido para quem espera por algo poético como um discurso de Fritjof Capra. Poucos possuem tal habilidade. Talvez esta seja uma das razões para que nossa sociedade mantenha alguma resistência à argumentação científica a cerca de experimentos com células-tronco, por exemplo. Creio que o distanciamento da ciência em relação ao público não especializado esteja estreitamente ligado à erudição e, por vezes, à prolixidade do discurso que emerge de nossos cientistas investidos da autoridade do conhecimento concedida pela mesma sociedade que não compreende as ideias da ciência.

Mesmo no meio científico, observamos alguma dificuldade para se aderir a práticas ou métodos que não tenham uma roupagem inspirada pelas ciências humanas por parte de muitos cientistas que se consideram de pensamento livre. A formação acadêmica é direcionada para um modo particular de pensar. Neste modelo, deve-se ter repulsa pelo positivismo, pelo mecanicismo ou qualquer outro modo que seja esteticamente reprovável. Há alguma inversão aqui? Não, certamente faço alusão à formação acadêmica nas áreas de ciências humanas ou, de meu especial interesse, as ciências da saúde.

A este ponto outra consideração faz-se necessária. O termo “estética”, aqui, assume além do significado trivial, o sentido de moral. E que definição de moral é pouco subjetiva? Esta assume particularidades dependentes do indivíduo e algumas variáveis ambientais como situação financeira, educação, etc.

“A moralidade é definida como a conformidade com padrões, direitos e deveres compartilhados. Quando dois padrões socialmente aceitos entram em conflito, a pessoa aprende a fazer julgamentos com base em um sentido de consciência individualizado. As pessoas são moralmente obrigadas a obedecer a normas estabelecidas, mas apenas até o ponto em que sirvam às necessidades humanas” (SADOCK, 2007).

O que pretendo com esta argumentação é mostrar que muitos métodos que se mostram funcionais para algumas situações são recriminados e deixados de lado, mesmo que somente no discurso, por questões que não dizem respeito a testes que refutem o método, mas por razões religiosas ou porque as pessoas em questão foram instruídas para acreditar que estes métodos são tradicionais e desmoralizados.

[…] não há apenas uma maneira de raciocínio capaz de dar conta do complexo mundo das investigações científicas. O ideal seria empregar métodos, e não um método em particular, que ampliem as possibilidades de análise e obtenção de respostas para o problema proposto (SILVA, 2001).

Não se pretende aqui fazer julgamento de certo ou errado em negar um modelo particular de fazer ciência. Mas, é necessário chamar a atenção para o fato de que em muitos casos os modelos considerados por muitos como tradicionais são aplicáveis e funcionais. Quando se adiciona a esta discussão uma pitada de efeito estufa, chuva ácida, derretimento das calotas polares, crise econômica mundial, recessão em países considerados desenvolvidos, e outras catástrofes chegamos ao clímax da ignorância e culpamos a ciência. Esquecemos que a ciência é uma atividade essencialmente humana, que ela não é boa ou má, mas que o homem por traz dela o é. Enfim, por mais que se negue o cartesianismo, o cientista que objetive entender seu objeto de estudos, somente irá livrar-se da esteira que o mantém numa fase estacionária quando perceber que terá de recorrer a todas as possibilidades investigativas e inevitavelmente lançar mão de algum método que analise as partes.

Passemos então as críticas legítimas. Se há algo que mostra fragilidade na argumentação cartesiana é, sem dúvida, o emprego da religiosidade e fé exacerbada na prática argumentativa. Descartes acreditou ter definitivamente provado a existência de Deus com base na famosa argumentação “cogito, ergo sum” (penso, logo existo). Acreditava ter mostrado quais eram as leis da natureza, e isto sem alicerçar suas razões em nenhum outro princípio que não “as perfeições infinitas de Deus”.

O doutor Silvio Zamboni (2001) acredita que Descartes foi um divisor de águas no que concerne à divisão do conhecimento humano, principalmente no que diz respeito aos aspectos explicativos. E vai ainda mais longe ao afirmar que o cartesianismo é a razão, e explica o que pode ser enquadrado dentro de seus preceitos. O que há de racional na afirmação de Deus como a causa primeira? A esse respeito teria sido mais seguro para Descartes não ter-se manifestar. Descartes parte da presença do pensamento e não do mundo natural, pois acredita que o mundo das representações não passa de ilusão. Assim, a única coisa que seguramente existe é o “eu” que tem consciência de si. Ora, se todo o mundo exterior não passa de representação, de ilusão, então porque razão Descartes acredita ser a linguagem – instrumento por meio do qual chegou ao seu “cogito, ergo sum” – isenta de tal status? A linguagem não é produto do mundo natural e realmente exterior ao ser? Está repleta de representações que erigem o entendimento do mundo natural. Descartes não era assim tão cético, só fazia uma confusão à maneira que só os filósofos sabem fazer. Vejamos uma série de conclusões precipitadas de Descartes:

[…] em primeiro lugar, a diferença que se percebe entre o sangue que sai das veias e o que sai das artérias só pode se originar do fato de que, havendo-se diluído e como destilado ao passar pelo coração, é mais fino, mais vivo e mais quente logo após sair dele, ou seja, quando corre nas artérias, do que o é um pouco antes de nele penetrar, isto é, quando corre nas veias (DESCARTES, 2006).

Depois a digestão: como ela se processaria no estômago se o coração não lhe enviasse calor pelas artérias, e, com esse, alguns dos elementos mais fluídos do sangue, que ajudam a dissolver os alimentos que foram para ali levados? (DESCARTES, 2006).

E a ação que transformou o suco desses alimentos em sangue, não será ela fácil de conhecer, se se considera que este se destila, passando e repassando pelo coração, talvez mais de cem ou duzentas vezes por dia? (DESCARTES, 2006).

Referências

SADOCK, Benjamin James. Compendio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 9 ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.
GRANGER, G. G. A ciência e as ciências. São Paulo: UNESP, 1994.
DESCARTES, R. Discurso do método: regras para a direção do espírito. São Paulo: Martin Claret, 2006.
SILVA, E. L. Da. Metodologia da pesquisa e elaboração de dissertação. 3 ed. Florianópolis: Laboratório de ensino a distância da UFSC, 2001.
ZAMBONI, S. A pesquisa em arte: um paralelo entre arte e ciência. 2. ed. – Campinas: Autores Associados, 2001.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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