Compreensão pública da ciência

O ofício da ciência: descrever para explicar

Rede de interações causais

Qual o papel da ciência? Descrever, explicar, relacionar, analisar! Qual a conexão entre estas palavras que dá sentido à empreitada científica? Tentaremos responder estas questões a seguir. Relacionar explicação com causalidade é algo que parece inevitável quando se trata de definir o que faz a ciência. Contudo, as associações causais devem ser feitas cuidadosamente, pois trazem consigo uma série de implicações que podem gerar uma imensa confusão. Isto porque o termo “causa” pode assumir significados diversos como causa final, causa eficiente, causa material ou causa formal, para dar alguns exemplos. O mais adequado neste caso é declarar previamente o tipo de causa que se pretende investigar antes de iniciar o procedimento analítico.

Se nos comprometermos de maneira responsável com a semântica da causação, poderemos falar em termos de uma ciência das causas. Por exemplo, seria ingênuo apontar que muitas pesquisas têm caráter descritivo e que não deixam, por isso, de ser científicas. Se considerarmos os conceitos de causa material e/ou formal poderemos dizer que o processo descritivo de um fenômeno é, seguramente, a elucidação de sua causa ou, no mínimo, de algum tipo de causa. Segue-se que o ato de descrever pode ser encarado como mostrar uma causa do fenômeno.

Conforme explica a Dra. Emilia Saporiti Angerami, professora da Universidade de São Paulo, “fazer ciência é explicar o porquê dos fatos, e esta explicação advém de uma sólida base teórica. Cada ciência explica seus fenômenos com base nos pressupostos teóricos que a orientam.[1] Este é um posicionamento que gera algumas divergências. Afinal, há uma ou várias ciências? Penso mesmo que as divisões presentes naquilo que chamamos ciências seja uma questão mais pragmática que fundamental. Chamo uma questão de pragmatismo a divisão dos conteúdos relacionados à bacteriologia, micologia e virologia ou a unificação destes num grupo chamado microbiologia, por exemplo. Não há nada de fundamental que separe as questões científicas relativas aos organismos mencionados, mas algumas vezes as questões são tratadas separadamente.

Esta é uma questão que deve tomar algo de nosso tempo. A fragmentação do conhecimento em disciplinas é o que torna viável a elaboração de grades curriculares e estratégias padronizadas de educação de massas. Há anos a escola brasileira vem tentando, sem sucesso, implementar conceitos como temas transversais e interdisciplinaridade. Digo sem sucesso porque de um lado os professores, da educação básica até a universidade, não sabem como fazê-lo e de outro as instituições de educação não oferecem condições que viabilizem a ação.

O produto deste modelo de educação é um indivíduo que acredita na real separação entre química orgânica e físico-química, por exemplo. Aqui abro um parêntese para relatar uma breve história. Em uma das etapas de minha pós-graduação trabalhei bastante com técnicas bioquímicas para separação e identificação de proteínas de um fungo que causa doença respiratória em humanos. Em certa ocasião me foi perguntado qual era a ciência que fazia, se bioquímica, micologia, microbiologia ou biologia, para dar alguns exemplos. Respondi que fazia ciência e que usava ferramentas que me eram convenientes para meu desenho experimental, tais como espectrometria de massas, cromatografia, cultura celular, Western blot, etc. e que estas ferramentas eram explicadas por disciplinas diferentes. Não sei se fui compreendido na época, mas esta é a visão que mantenho sobre o assunto.

Disciplinas acadêmicas são separadas de acordo com a profundida com a qual cada instituição pretende trabalhar o assunto em questão. Basta dar uma rápida olhada nas grades curriculares de algumas instituições que oferecem os mesmos cursos. Algumas grades são tão distintas que parecem compor a base de cursos de graduação completamente diferentes. Não pretendo aqui levantar discussões sobre homogeneidade de cursos ou identidade profissional, mas apenas chamar atenção para o fato de que a divisão do conhecimento em disciplinas é feita por uma questão de conveniência, não de uma análise filosófica sobre a natureza do conhecimento.

Estas e outras questões fazem-me sustentar a visão de que pode-se fazer ciência sendo biólogo, antropólogo, administrador, químico ou engenheiro, por exemplo. Assim como alguém pode ter formação em física e optar por apenas lecionar. De modo geral, fazemos ciência se respeitamos as normas do paradigma corrente.

Voltando à questão sobre o que faz a ciência, dissemos que ela busca relações de causalidade na natureza e que o termo causa pode assumir significados particulares. Entre os particulares, dissemos que descrever a natureza poderia ser considerada uma revelação das causas formal e material do fenômeno estudado. A próxima questão que emerge é sobre o que é oferecer uma explicação para um dado fenômeno. O físico Steven Weinberg[2] pode dar uma dica:

“Pode-se supor que algo é explicado quando lhe encontramos a causa, mas um texto de Bertrand Russell, em 1913, argumentava que ‘a palavra “causa” está tão inexplicavelmente presa a associações enganosas que sua completa exclusão do vocabulário filosófico se faz desejável’. Isso deixou os filósofos com uma única escolha para a distinção entre explicação e descrição, uma escolha teleológica, definindo uma explicação como uma declaração do propósito da coisa explicada”.

O problema gerado pela escolha teleológica é que somos levados a pensar que há propósito em tudo que pode ser explicado. O Dr. Gilson Iannini, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, referindo-se as fronteiras existentes entre ciência e outras atividades não científicas, escreveu “[…] critérios demasiado frouxos acabam implicando a aceitação contra-intuitiva de certas práticas, que dificilmente poderiam ser vistas como científicas, como a astrologia, para pegarmos um caso mais extremo.[3]

O problema real, não é exatamente se a explicação é em termos causais ou não, mas a que tipo de causação a explicação se refere. Como decidir se o objeto de ciência deve ser explicado buscando-se um propósito ou explicado de outra forma? Falar de propósito evoca problemas filosóficos importantes e pode nos remeter a uma forma de avaliar se estamos fazendo a pergunta adequada. Sobre isso, o biólogo Richard Dawkins escreveu em seu “O Rio que saía do Éden.[4]

“O desejo de ver propósito em toda parte é natural em um animal que vive cercado por máquinas, obras de arte, instrumentos e outros artefatos projetados; […]. Um carro, um abridor de latas, uma chave de parafuso ou um forcado garantem a legitimidade da pergunta “para que serve?” […] Se, em um curso d’água, uma pedra serve como apoio, consideramos sua utilidade como um benefício acidental, e não algo com um propósito verdadeiro.”

O arquiteto da Matrix explica as relações de causalidade.

Já há época dos grandes filósofos se percebia que a consciência construtiva, isto é, aquela que planeja, poderia ser construída pela natureza, mas não ser um atributo dela própria. As grandes tempestades, enchentes e terremotos não poderiam ser eventos conscientes, mas deveriam ter sido causados por uma entidade dotada de vontade de causa-los. Como acreditavam haver um propósito (causa final) para tudo o que há, propuseram a existência de entidades conscientes que eram responsáveis pelo planejamento e execução daqueles eventos naturais e chamaram de deuses. O que fizeram os antigos gregos, como outros povos, foi construir uma ideia sobrenatural para explicar o natural.

Assumindo que não há propósito nos fenômenos naturais, mas antes o resultado de acontecimentos acidentais, qualquer tentativa de definir explicação como algo referente ao propósito se torna insuficiente e não se sustenta como um problema legítimo. Karl Popper defendeu que “oferecer uma explicação causal de certo acontecimento significa deduzir um enunciado que o descreva, utilizando, como premissa da dedução, uma ou mais leis universais[5]”. Esta declaração muda a direção do termo causa para muito longe das finalidades. Assim poderemos dizer que a ciência explica a natureza descrevendo as relações causais existentes entre os fenômenos que analisa. Esta parece uma boa declaração sobre o ofício de um cientista.

Dissemos que a ciência busca as causas, o que implica que uma pergunta científica deve ser elaborada cuidadosamente em termos causais. A importante questão que surge é “como formular uma pergunta científica legítima?” Sem dar por encerrado esta discussão, abordaremos a questão das finalidades no escopo científico em outros dois textos.

Referências

[1] Cf. ANGERAMI, E. L. S. O mister da investigação do enfermeiroRev. Latino Am. Enferm. Ribeirão Preto, v.1, n.1, p.11:22, janeiro, 1993.

[2] Cf. WEINBERG, S. Os limites da explicação científica. Mais, Folha de São Paulo, Junho, 2001.

[3] Cf. IANNINI, G. Psicanálise, ciência extimaEpistemo-Somática, Belo Horizonte, v.4, n.1, p.69:78, jan/jul, 2007.

[4] Cf. DAWKINS, R. O rio que saía do Éden: uma visão darwiniana da vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

[5] POPPER, K. R. A lógica da pesquisa científicaSão Paulo: Cultrix, 1959.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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