Compreensão pública da ciência/Filosofia

Um brinde a Copérnico

Há séculos se pensava que a Terra fosse o centro do universo. É fato que, aquela época, ninguém considerou seriamente as implicações físicas desta assunção em primeiro lugar. Porque razão havia a Terra, este minúsculo planeta, de ocupar lugar de tamanha distinção? não é óbvio? habitamos este planeta e não outro! há duas maneiras de olhar esta afirmação: a primeira advém das autoridades religiosas e sustenta que, por habitarmos a Terra, deve ela ser um lugar privilegiado. Afinal, o homem é um desígnio divino, o projeto último de qualquer criador. A segunda, não menos equivocada, é oriunda da observação direta isoladamente. Percebemos o Sol mudando sua posição em relação a nós. Assim, a observação aliada ao argumento religioso, por longo tempo, foram os alicerces que sustentaram nossa privilegiada posição em relação a, digamos, o resto do universo.

Quando Copérnico insinuou que o Sol deveria ocupar o centro e não a Terra, isso gerou um mal-estar geral aos defensores da visão até então estabelecida. É importante salientar que o centro proposto por Copérnico era de um dado sistema e não do universo em sua totalidade. Ainda hoje não sabemos se o universo é finito ou não. Mas então, quais eram as implicações da proposição heliocêntrica? Do ponto de vista físico, não teria sido muito difícil convencer qualquer pessoa de bom senso de que a Terra não poderia ser o centro de nosso sistema. Convém lembrar que Copérnico era um astrônomo ligado à igreja. O problema então não eram as implicações físicas, materiais que o heliocentrismo traria, mas as implicações sobre as crenças religiosas das pessoas da época.

O discurso religioso se investe de uma autoridade divina que é, por sua natureza, inquestionável. Crer na natureza divina do discurso é o que mantém a fé das pessoas de um lado e o poder das igrejas do outro. Afinal, como acreditar sem questionar? A única forma de aceitar uma proposição eximindo-se da responsabilidade de submetê-la à boa crítica é se a proposição for feita por uma autoridade onisciente. O que, até agora, sabemos não ser possível. Mas o discurso religioso precisa que as pessoas mantenham a fé. Isto é, acreditem sem questionar as evidências. Por isso, as proposições de Copérnico eram vistas como perigosas para a igreja. Se a Terra não ocupava lugar de destaque no sistema, então não havia razão para crer que o homem – começando sua escalada para tornar-se Homo sapiens – fosse tão importante quanto se pensava. O Homo sapiens era agora só mais uma parte microscópica, acidentalmente surgida na imensidão do universo.

Um pouco da fé das pessoas abalou-se pela proposição heliocêntrica. Inevitavelmente, a ideia de Copérnico se espalhou e foi levada à frente por pessoas comprometidas com o avanço de nosso conhecimento sobre o universo. Hoje sabemos que lugar ocupamos no, então promovido, Sistema Solar. A Terra é mais um planeta, acidentalmente investido dos atributos necessários para que a vida tenha se desenvolvido. Nosso conhecimento sobre o cosmos está crescendo grandemente e é possível que haja vida em outros planetas, de modo que planetas potencialmente habitáveis tem sido identificados. Essa visão, introduzida por Copérnico, é muito mais fantástica.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

2 pensamentos sobre “Um brinde a Copérnico

  1. e até hoje a religião tenta atrapalhar os avanços científicos, mas ela só tem apoio daqueles que a acreditam cegamente na fé e não nas evidências.

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