Filosofia/Sociedade

Sacrum Profanum: a crise do secularismo

Recentemente um músico polonês, Adam “Nergal” Darski se envolveu num episódio que evidencia a crise do secularismo contemporâneo. Nergal é um músico bastante conhecido em sua terra natal e lidera uma banda de rock chamada Behemoth. Isso mesmo, sua música é conhecida no cenário musical como death metal, uma música com forte crítica. Suas apresentações lotam casas de shows com fãs de todo o mundo para ouvir sua música e assistir a performance teatral da banda. A música é cantada em inglês e quem ouve o vocal gutural e assiste à performance da banda, frequentemente associa os artistas a algum movimento satanista ou coisa do gênero. Nergal foi acusado na Polônia de blasfêmia e, por isso, pode responder criminalmente! Razão? O músico rasgou uma bíblia durante um show, como parte de sua performance e proclamou que a igreja católica mantém “o culto mais assassino do planeta“.

Durante a idade média, muitos foram condenados à morte pelo crime de heresia. Como os apologéticos da igreja católica gostam de dizer, a igreja jamais executou um único cientista. Apenas condenou por heresia que, circunstancialmente, era crime punido com a morte e ao Estado cabia executar a pena. Será verdadeiramente circunstancial o hábito mantido pela igreja católica de punir os opositores de sua liturgia? Alguns poderiam achar que a atitude de Nergal, talvez, fosse merecedora de punição. Contudo, paramos para pensar se a crítica é, de fato, uma agressão social? ou será ela, quem sabe, a única liberdade de expressão que ainda nos resta?

Olhando a situação de um ponto de vista mais coerente, eu diria que não pode ser calúnia ou difamação dizer que o governo dos EUA matou, pelo menos, algumas centenas de inocentes no Vietnã (meu ponto é confirmado por Chomsky no brilhante Razões de Estado). Em síntese, não pode ser crime dizer que um assassino matou pessoas. Mas o crime de Nergal não foi calúnia ou difamação, foi blasfêmia! Este, na visão da igreja católica, é pior do que qualquer genocídio registrado pela história.

Estamos correndo sério risco de retroceder à idade média que, não por acaso, ficou conhecida como a idade das trevas. A mão da igreja interferindo nas decisões de Estado só pode gerar trevas. O curioso é que nossa conversa começou falando sobre o trabalho artístico de Nergal na banda Behemoth, que para alguns parece ter algo haver com as trevas. Alguns padres chegaram mesmo a chamar Nergal de satanista. A pressão gerada pelo discurso religioso e por grupos de cristãos mobilizados causou a saída de Nergal de um programa de televisão do qual o músico participava como jurado. A própria emissora chegou a reconhecer o talento e qualificação do artista para a função, mas não tinha outra alternativa que não demitir o músico. Para a TV não foi uma escolha difícil optar entre um artista qualificado ou a audiência.

A crítica crescia e os representantes da igreja católica acusavam Nergal de fazer apologia ao demônio e que sua presença em canais de TV teria graves consequências sobre a moral e bons costumes religiosos. Quando Nergal executou as ações que desencadearam todos estes eventos ele estava entre quatro paredes, cercado por um público que rejeitava qualquer crença religiosa em primeiro lugar. Como poderiam ser influenciados?

Nergal publicou um livro intitulado “Sacrum Profanum. Nesta obra fica clara a visão que o músico tem sobre os mitos e sobre a função da religião na sociedade.

“O Homem criou ‘Deus’. Nós demos a ‘Ele’ características humanas e personificamos ‘Ele’. Então o homem se ajoelhou diante de sua própria criação como se ele tivesse tirado dele mesmo tudo aquilo que era ótimo, criativo e bom, e colocado num pedestal. Então, o homem olhou para ele mesmo como se fosse algo ruim e fraco. Porque? Eu não sei. O que eu sei é que adotando uma atitude criativa e comunicativa diante do mundo, cada um de nós pode aperfeiçoar nosso elemento divino. Nós podemos fazer isso sem a ajuda de figuras penduradas na parede e sem rezas, ídolos ou bezerros de ouro. Eu não forço as pessoas a acreditarem em minhas opiniões. Eu não me importo se as pessoas estão me desafiando por causa delas, negando-as ou as debatendo. Essa é a essência da liberdade. A essência que é morta pela ‘verdade reveladora’ a qual fez com que várias culturas fossem eliminadas. Quando sou atacado por cristãos, eu orgulhosamente respondo: “Seu Deus foi pregado na cruz, o meu tem um martelo. Tire suas conclusões.” Eu efetivamente lutei contra a doença, indiferentemente se foi o câncer ou a religião.”

A visão de Nergal e a mensagem crítica que sua arte passa é clara. Não tem absolutamente nenhuma relação com satanismo ou qualquer outra forma de misticismo. De fato, sua visão lembra muito a do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), quem defendia que Deus é uma criação do narcisismo humano. No final, o que se vê é o Estado e a sociedade cedendo às pressões da igreja. Esta última tem usado todas as suas armas para não ter seu poder diminuído, o que inclui calar opositores.

Leitura sugerida:

Ludwig Feuerbach. Preleções sobre a essência da religião. Vozes, 2009.

Adam Nergal Darski. Sacrum profanum. Gruner+Jahr Polska, 2012.

Noam Chomsky. Razões de Estado, Record, 2008.
Este texto também foi publicado pelo site da Sociedade Racionalista.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

2 pensamentos sobre “Sacrum Profanum: a crise do secularismo

  1. Acredito que o problema seja inerente à linguagem do pensamento – a forma como interpretamos os eventos na nossa cabeça. Talvez a resposta para o que ocorreu emerja da ressalva de que a linguagem do pensamento nos permite enquadrar uma situação de maneiras diferentes e incompatíveis entre si, como no exemplo da atitude de Nergal. O que ele teria feito afinal, ofendido as pessoas que adotam tal religião como fundamento de suas vidas, ou expressado um ponto de vista filosófico próprio e que é perfeitamente plausível?
    Acho que temos que partir da premissa de que a natureza da realidade não dita necessariamente como ela é representada na cabeça das pessoas. Talvez necessitemos recorrer à explicação do próprio significado da semântica para entender o episódio.
    O cientista cognitivo Steven Pinker escreveu: “a semântica (…) trata da relação das palavras com as emoções: o modo como as palavras não só indicam coisas, mas estão saturadas de sentimentos, que dotam as palavras de um sentimento de magia, tabu e pecado. E trata das palavras e relações sociais – como as pessoas usam a linguagem não só para transferir ideias de cabeça para cabeça, mas para negociar o tipo de relacionamento que querem manter com seu parceiro de conversa”.
    Há um conteúdo conceitual por trás do debate envolvendo a atitude do vocalista em relação à religião, onde interpretações rivais de um mesmo episódio podem desencadear um conflito de proporções incríveis… O ponto, é que a mente humana escolhe o que é fato e o que não é; portanto, quando as pessoas assumem que “Nergal ofendeu um povo inteiro”, estão sendo desonestos ao desconsiderar a plausibilidade das justificativas dadas por ele ao fazer a ação, e estão agindo conforme seus próprios propósitos ao escolher no que acreditar. Aqui entra a religião.
    A religião possui um conteúdo linguístico impregnado de tabus. Simplesmente não se pode criticar, citar ou até mesmo representar entidades religiosas de modo aberto em discussões, textos, desenhos, etc., devido a aceitação tácita de que convicções religiosas não devem ser debatidas. Não vou entrar neste mérito, mas reafirmo que o estardalhaço foi causado porque pessoas são desonestas. A honestidade neste caso implica reconhecer que existem várias formas de interpretar a experiência, e não escolher uma única interpretação capaz de desestruturar outras fortemente enraizadas na mente humana. Talvez, não haja uma aceitação tácita sobre o “discutir religião”, e sim um consenso silencioso com vistas a NÃO levantar suspeitas…

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