Compreensão pública da ciência/Filosofia

A promessa da ciência

A lógica é um campo que se preocupa com a estrutura, forma ou correção dos argumentos. Desde Aristóteles tem sido uma das ferramentas mais importantes de que a humanidade faz uso para tirar conclusões. Aliada à matemática, a lógica se torna o mais feroz dos juízes. De fato, se é desejável verificar a consistência de um dado argumento durante uma discussão, avaliamos sua concordância com as regras da lógica.

Nem mesmo podemos dizer que temos um argumento, caso nossa proposição não respeite uma dada estrutura que autorize sua validade. Aristóteles criou os silogismo, um tipo de forma lógica para argumentação. Apresento em seguida um exemplo clássico de silogismo aristotélico:

Todo homem é mortal
Sócrates é um homem
logo, Sócrates é mortal

Este silogismo torna a explicação mais fácil. Argumentos lógicos devem respeitar a forma proposta. Assim, partindo-se de premissas relacionadas segue-se uma conclusão obrigatoriamente derivada das premissas. Uma das coisas de que muitos cientistas e, mesmo alguns filósofos, se orgulham é de seguir os mandamentos da lógica para fazer inferências. No entanto, pode a lógica ser um critério de validade para ela própria?

É fato conhecido que a lógica não está preocupada com a verdade das premissas. Avaliar o valor de verdade é função da epistemologia, não da lógica. De fato, podemos ter um argumento válido (legítimo) partindo de premissas falsas desde que a forma/estrutura do argumento esteja correta. Quando elaboramos hipóteses ou fazemos predições científicas essas ações devem respeitar critérios que as tornem válidas. Para isso, usamos a correção lógica. Isso garante que nossas ações estão no caminho certo e faz com que o público geral deposite alguma credibilidade nos argumentos. Se quiser, é algo similar ao que ocorre quando você vai à loja comprar uma geladeira nova, pois sua antiga consumia muita energia. Você escolhe entre as marcas que mais lhe agradam e leva para casa aquela com o Selo Procel de Eficiência Energética (Inmetro).

Uma pergunta pouco conveniente poderia ser feita. O Inmetro garante a eficiência do produto, mas quem garante a eficiência do Inmetro durante o processo? Em nossa analogia o produto (sua geladeira) é equivalente às teorias científicas e o Inmetro é equivalente à lógica. A situação é pouco confortável, confesso. Contudo, este é um problema real com o qual temos de lidar na ciência e, também, na filosofia. Simplesmente, não há maneira de testar a lógica, você deve assumir que ela é infalível e capaz de oferecer as melhores regras para o raciocínio. No inicio da década de 1900, Viena foi a capital da lógica. Lá, um grupo de influentes filósofos criou o que ficou conhecido como Círculo de Viena. Escreveram muitos trabalhos e valorizavam, acima de tudo, o uso da lógica como critério de correção do intelecto. Foram chamados de positivistas lógicos, visto que acreditavam ser a lógica infalível. Na matemática algo similar acontece com os sistemas baseados em axiomas. Os axiomas são, por definição, verdades auto-evidentes, que dispensam a necessidade de prova. Um bom exemplo são os axiomas de Euclides:

1. Duas coisas iguais a uma terceira, são iguais entre si.
2. O todo é maior que a parte.

Como rapidamente se percebe, ninguém duvidaria destas simples proposições. São bastante intuitivas e nos parecem muito claras. Exatamente por isso são chamados axiomas. Bem, mas voltemos à lógica. Minha analogia com o selo Inmetro tem um propósito. Mostrar que, embora você possa questionar quem avalia o Inmetro, isso não elimina o fato de que o Inmetro não está apenas imprimindo o selo de garantia baseado em testes psicológicos. Testes experimentais foram efetuados em sua geladeira e, como um filho que conclui a universidade, no final dos exaustivos testes sua geladeira foi aprovada e recebeu o diploma de eficiência energética. O mesmo ocorre com as teorias científicas. O primeiro teste é sem dúvida o lógico, mas o passo seguinte é o teste experimental.

Karl Popper acreditava no falibilismo da lógica. Afirmava ser nosso conhecimento sobre a natureza contingente. Ele não era um cético, pois não acreditava ser impossível acessar a verdade. Também não era um relativista, pois não acreditava que todas as formas de conhecimento são válidas. Era um realista, e buscava separar lógica, matemática e sistemas metafísicos da ciência. Via na natureza a necessidade de usar a lógica e a matemática apenas como ferramentas da ciência sem absolutizar as conclusões daí originadas.

A ciência vem aumentando nossa compreensão sobre a natureza e muito do que era desconhecido há 100 anos hoje é banal. Podemos supor que as respostas que hoje nos faltam, serão base para novas perguntas daqui a alguns anos. Afinal, a promessa da ciência para a humanidade é que sempre haverá novas perguntas. Absolutizar a lógica pode assassinar a promessa da ciência.

Leituras sugeridas:

Karl Popper. Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionária. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975.
Peter Medawar. Os limites da ciência. São Paulo: UNESP, 2008.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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