Filosofia

A estrutura de um conceito

Lidar com conceitos é uma tarefa que realizamos cotidianamente e que, em primeira análise, não encerra grande dificuldade. Não aplicamos muito de nosso tempo pensando na legitimidade ou correção deles, o que parece uma atitude bastante sensata no que diz respeito aos conceitos pragmáticos como casa, carro e tantos outros. Os problemas de se lidar com conceitos surgem quando é necessário fornecer uma explicação para um fenômeno qualquer. É-nos exigido apresentar um conceito cercado por definições que fazem parte de um contexto específico.

Para uma boa definição de um elemento busca-se um nome que satisfaça características próprias deste elemento, tornando-o inteligível e não ambíguo. O nome do elemento é um substantivo. O substantivo guarda em si grande confiança, uma vez que, por definição, ele é a palavra que, sem auxílio de nenhuma outra, designa a substância. A substância, por sua vez, designa a matéria, a essência. A essência é a substância íntima de algo ou a ideia principal, enquanto a matéria é aquilo que tem massa e ocupa lugar no espaço.

Pondo em julgamento o conceito de substância enquanto essência, temos que a substância é a substância íntima. Portanto, é mera trivialidade de auto-declaração ou identidade e não tem valor de informação como diria Frege (1848-1925). Para o conceito de substância enquanto matéria deve-se avaliar a necessidade de considerar ou não a ideia de não-lugar proposta pela mecânica quântica. Não nos precipitemos a pensar que esta forma de analisar conceitos é uma redução ao infinito, pois não estamos fazendo menção aos conceitos de tempo ou causa eficiente.

Convém oferecer uma análise sobre conceituar algo. Parece-me que, inexoravelmente, um conceito ou uma definição são conjuntos descritivos. Em alguns casos apenas enumeramos os elementos do conjunto e não os descrevemos verdadeiramente. Assim, um conceito simples encerra um conjunto de elementos que, na maioria das vezes, guardam relações entre si. A guisa de exemplo tome-se o conceito de árvore. Poder-se-ia dizer que é uma planta, que é lenhosa, e de grande porte. Ao apresentar tal conceito é exigido que o interlocutor conhecesse outros conceitos relacionados, como o de reino, neste caso o reino Plantae. Como consequência, a árvore torna-se um subconjunto de planta (o elemento árvore está contido no conjunto planta) e podemos seguramente usar o quantificador universal para dizer que toda árvore é uma planta.

Lenhosa é um atributo da árvore, de forma que o fato de ela produzir madeira na maturidade a define. A altura característica é um elemento explícito do domínio referencial. Tomamos uma altura arbitrária (i. e., seis metros), mas que nos pareça imponente para definir grande porte. Neste caso três vezes a altura de um homem grande. Podem-se acrescentar outros elementos, como ter ramos secundários para distingui-las das palmeiras, por exemplo, mas todos, e cada um dos elementos do conjunto árvore, podem ser questionados. A menos que os componentes guardem estreitas relações entre si, estarão sob pena de inconsistência e perecimento. Muitos conceitos se perpetuam pelo uso acrítico, outros não resistem a uma análise pormenorizada e são logo substituídos por conjuntos que melhor representem o ente que se pretende conceituar.

Leitura sugerida

FREGE, Gottlob. 1967. Concept Script, a formal language of pure thought modeled upon that of arithmetic. S. Bauer-Mengelberg in Jean Van Heijenoort.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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