Filosofia/Psicologia

O fenômeno identidade

“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

“Sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei”.

O pequeno príncipe de Antoine de Saint-Exupéry sempre tem algumas lições a ensinar. Estou especialmente interessado nas duas que iniciam este texto. A despeito das muitas interpretações que delas possam surgir, quero destacar as implicações delas advindas sobre a identidade do sujeito.

Somos influenciados pelas pessoas que passam em nossas vidas e isso não constitui novidade alguma. Aprendemos com as experiências vividas a não cometer os mesmos erros e então cometemos outros diferentes. A resposta à pergunta “quem somos?” parece ser: Somos um produto cumulativo das histórias vivenciadas por nós. Seria simplificar demais? ou complicar com poucas palavras? Há quem defenda que a identidade é, nada mais que o produto das informações contidas nos genes e há quem defenda que nada disso é verdade, pois a identidade seria socialmente determinada. Só poderia ser um produto da cultura.

Determismos à parte, o notável biólogo E. O. Wilson escreveu em 1975 um livro que revolucionaria as formas de abordar o comportamento e, para a sorte de nossa discussão, a identidade. Sociobiology: the new synthesis é um trabalho que fundou uma nova disciplina, a sociobiologia. Isso colocaria fim à guerra há tempos declarada entre defensores das vertentes deterministas  sejam elas sociais ou biológicas. Agora a identidade seria vista, não mais como o produto da história ou dos genes isoladamente, mas como um fenômeno que sofre interferências biológicas e sociais.

Tomei conhecimento desta discussão quando ainda na graduação, por meio de meu orientador de iniciação científica e posteriormente de trabalho de conclusão de curso. Este último acabara por versar sobre a epistemologia de meu campo de conhecimento. Recentemente voltamos a discutir o assunto, o que me fez adotar uma perspectiva que suscita mais dúvidas que certezas.

Desejo compartilhar um pouco de minha visão como segue: imagine a equação da reta. Aquela que descreve y = ax + b. Assim, você deve ter uma variável independente e uma dependente, que varia em função da primeira.  Não se pode imaginar qualquer correlação com apenas uma variável, seria inconsistente. A identidade é um fenômeno e como tal é objeto de estudos de alguns grupos de pesquisa. Tal como faz o professor Arley da Costa na Universidade Federal do Amapá usando insetos sociais como modelos experimentais.

Voltando à equação da reta é possível descrever o que chamamos correlação e alguns interpretam livremente como relação de causa/efeito. Uma correlação entre duas ou mais variáveis objetiva saber se as alterações em uma das variáveis é acompanhada por mudanças nas outras, mas isso não nos autoriza a assumir que uma é causa da outra. A identidade é um fenômeno causado? se assim for, então deveríamos encontrar algum determinante. Esta é a visão do inatismo ou das vertentes sociodeterministas. Mas se a identidade não for um fenômeno causado? então não encontraremos indicação de um causador ou determinante. Poderemos apenas encontrar correlações.

Para qualquer correlação consistente precisamos de duas variáveis (e.g., uma biológica e outra social). O que nos leva a outra indagação. Se são duas variáveis correlacionadas, devemos assumir que uma está em função da outra (i. e., uma dependente e outra independente). Qual das duas é a variável independente? Seria o gene? Tal como um sábio amigo outra hora mencionou não há nada que o meio possa moldar que já não esteja no gene. Mas e se a identidade for um fenômeno um tanto mais complicado que uma reta? Uma simples correlação poderia representar uma identidade bona fide? As variáveis poderiam se revezar quanto à característica de independência?

Talvez, uma forma de explicar como surge a identidade repouse naquilo que conhecemos pelo nome propriedades emergentes. Arto Annila, físico da University of Helsinki e Keith Baverstock, químico da University of Eastern Finland explicam o que é uma propriedade emergente da seguinte forma. Suponha que você deseja preparar uma mistura dos gases nitrogênio e hidrogênio, cujas propriedades são inofensivo e inodoro, respectivamente. Então você aquece a mistura a altas temperaturas fazendo com que haja troca de elétrons entre os dois gases e gerando amônia como produto. O produto amônia é um gás perigoso e com odor pungente. Estas são propriedades do produto (amônia) que não poderiam ser preditas partindo das propriedades físicas dos reagentes (nitrogênio e hidrogênio). São, portanto, propriedades emergentes. Embora não seja o definitivo, este é um caminho interessante para se discutir a formação da identidade. Seria a identidade uma propriedade emergente da interação entre genes e ambiente? Uma propriedade que não pode ser extraída olhando para qualquer dos agentes (gene ou ambiente), mas apenas observada após a interação? Se a identidade for uma propriedade emergente, ela não poderá ser predita. Não haverá receita de bolo, protocolo ou instrução para sua formação, em primeira análise.

Esta discussão não se dá por encerrado, nossa identidade está em constante formação e talvez só possamos estabelecer uma identidade definitiva após a morte. Pois é quando paramos de interagir com o ambiente e nossos genes já não expressam qualquer produto. Tornamo-nos uma parte inconsciente da natureza. Enquanto vivos, tomamos consciência de nossa existência e que somos essencialmente uma parte consciente da natureza. Cada inseto, fungo e bactéria que se alimentam de nossa existência pós-morte carrega uma parte dos reagentes que interagiram para fazer emergir nossa identidade. Esta visão garante que sua matéria estará imortalizada na natureza quando sua consciência se esvair. Nenhuma visão mágica é necessária para tornar essa ideia mais apreciável.

Referências

Antoine de Saint-Exupéry. O pequeno príncipe. Agir, 1999.
Edward Wilson. Sociobiology: the new synthesis. Harvard University Press, 1975.
Richard Dawkins. O gene egoísta. Companhia das Letras, 2007.
Rick Lewis. A challenge to the supremacy of DNA as the genetic material. DNA Science Blog, March 20, 2014.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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