Compreensão pública da ciência/Filosofia

As vestes da autoridade

discurso-politicoQuando ainda estava na graduação lembro de ter causado alguma polêmica ao apresentar nas aulas minha visão sobre ciência e como a enfermagem se encaixava nela. Dizia eu que a enfermagem tinha muitos problemas epistemológicos difíceis de resolver e penso que muitos de meus professores, aquela época, não entendiam os motivos. Sobre isto, encorajo os interessados a proceder a leitura de minha monografia para entender melhor a discussão.

Neste texto não pretendo abordar a enfermagem ou seus problemas epistemológicos, mas desejo apresentar uma crítica quase unânime que me foi dirigida durante minha pesquisa na graduação antes de entrarmos em nossa discussão. Ouvia inconformado um argumento que me parecia de uma simplicidade e superficialidade exageradas para ter sido formulado por um professor de graduação. Diziam-me: “hora, se você acha que a enfermagem não é ciência, o que você está a fazer aqui?” ou “Se a enfermagem não fosse ciência não estaria na universidade“.

Não há discordâncias quanto à importância da ciência, mas desejo chamar a atenção para o tipo de importância atribuída a ela. Acredito que as críticas citadas não estejam falando da importância convencional. Aquela que leva em conta os avanços sobre nosso entendimento a respeito da natureza e do cosmos ou sobre os frutos tecnológicos surgidos das descobertas científicas. Penso que a forma da crítica seja mais do tipo: “Se não é ciência, não é importante“.

A crítica revela o quanto nossa sociedade deposita crédito na ciência, ainda que não deem aos cientistas o devido reconhecimento e respeito. Usamos os frutos da ciência no nosso dia-a-dia e não nos damos conta disso. A ciência é sem dúvidas uma atividade humana das mais importantes, mas, diferente do que aponta a crítica, não é a única importante. De fato, ter um curso de graduação numa determinada área de conhecimento não implica que esta área seja uma ciência. Em realidade, o que a presença de um curso numa universidade expressa são as demandas da sociedade para uma determinada função nela. A universidade deve qualificar essas funções para que a civilização continue a operar de modo satisfatório.

Algumas pessoas que passam pela universidade se tornam cientistas e, com o devido treinamento, conseguem fazer ciência de fato. Sou um divulgador da ciência e como tal tenho grande preocupação com a forma como a ciência é apresentada ao público não especializado. Os noticiários são experts em mostrar resultados de pesquisas velhas como se fossem novidades e fazem um grande sensacionalismo quando alguma pesquisa parece promissora.

Quando algum grupo divulga resultados sobre estudos com envelhecimento a mídia explora nosso imaginário proclamando que a ciência está prestes a descobrir o segredo da imortalidade. Quando divulgamos resultados de pesquisas com novos alvos terapêuticos, a mídia diz que estamos prestes a descobrir a cura para as doenças até então incuráveis. Este é um hábito antigo do jornalismo não especializado e não surpreende, mas preocupa.

O cientista é um ser humano igual a qualquer outro e nada tem de especial que o torne melhor ou pior que qualquer outra pessoa. No entanto, o cientista tem o dever de não propagar a crença no sobrenatural uma vez que sua função é estudar a natureza em sua conformidade com as Leis naturais. Eventos ou fenômenos sem explicação não pertencem ao domínio do sobrenatural, mas ao domínio do desconhecido. O desconhecido, por sua vez, é temporal. Até 1993 não sabíamos da existência dos micro-RNA e hoje são uma ferramenta bastante útil na pesquisa médica.

Quando cientistas se posicionam em favor do sobrenatural, tal como fez o geneticista Francis Collins, a sociedade ganha um reforço enorme para justificar sua própria crença no sobrenatural. Como frequentemente ouço por aí, “se até o diretor do projeto genoma acredita, quer dizer que há evidências. Ele é um cientista renomado”. Algumas pessoas que passam por experiência de quase morte se tornam muito religiosas por terem experimentado algo muito pessoal. O que, de fato, sabemos é que algumas pessoas passam por experiências tão intensas que promovem uma mudança dramática em sua forma de ver as coisas, mais isso não muda a forma das coisas em si. Um cientista, em sua rotina de trabalho, se depara com coisas sem explicação e usa aquilo que sabe sobre a natureza para tentar entender o fenômeno. Se mesmo com todas as ferramentas disponíveis não obtivermos uma explicação, isso não nos autoriza a concluir que o fenômeno é sobrenatural, mas tão somente que não nos esforçamos o bastante ou que há restrições experimentais.

Não estou sugerindo que os cientistas devam ser todos ateus, mas que devem sempre lembrar do poder que suas ideias exercem sobre a sociedade quando se pronunciam. Mesmo quando as coisas não tem explicação conhecida elas estarão de acordo com as Leis naturais. Não há necessidade de invocar o sobrenatural, até mesmo porque não constitui uma explicação bona fide. Quando o cientista aceita o sobrenatural está entrando em contradição com sua própria atividade diária.

Outro caso é quando temos um insight que nos parece muito interessante. Frequentemente nos apaixonamos por essas ideias, pois são originais e, em alguns casos, realmente interessantes. Esse apego, por vezes, leva-nos a assumir que a ideia é verdadeira. É como um diálogo em nossa cabeça e ele diz: “não seria fantástico se isto fosse real?” então assumimos que é real, sem mesmo aplicar os devidos filtros. Alguns cientistas assumem essa postura de maneira irresponsável fazendo pronunciamentos públicos como: “A evolução é uma teoria e ainda não foi completamente comprovada” ou “se a evolução é verdadeira ou não, é algo que não se pode provar“. No primeiro exemplo, o intuito real, geralmente, é mostrar que nem tudo ainda foi explicado pela evolução. Mas quem pronunciou não rejeita o fato de que as espécies mudam ao longo do tempo e que as pressões seletivas fazem emergir novas espécies. O segundo caso se trata do mais puro desconhecimento aliado a uma filosofia pobre. Isso causa mais confusão na compreensão pública. O público então passa a assumir que se há uma contenda permanente entre os cientistas é porque a questão não está decidida e então pode assumir o design inteligente ou qualquer outra aberração como uma teoria válida. Minha sugestão é: se você é um cientista, tenha cuidado com a forma e conteúdo daquilo que diz em público, pois há audiência e ela vai levar a sério.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

7 pensamentos sobre “As vestes da autoridade

    • Esta falta de conhecimento gera ausência de discussão e esta é uma atitude que em muito prejudica o desenvolvimento do campo de conhecimento em questão. As discussões não podem ser evitadas, mas encorajadas.

  1. Parabéns pelo texto,consegui perceber seu direcionamento e estou de acordo com seus argumentos, é importante que o cientista assuma a responsabilidade e o cuidado de como os resultados de sua pequisa podem ser interpretados pelos outros. Equívocos devem ser evitados para evitar severas consequências, podemos até levar em consideração essa estória de fim de mundo devido o calendário Maia que de acordo com o G1, a Nasa foi levada a intervir e esclarecer esse assunto, já que pessoas estavam ameaçando se suicidar ou até matar os próprios filhos para que não sofram o “fim do mundo”, pois muita especulação foi feita pela mídia e outros, bem como por alguns ditos cientistas…

    • Cientistas aparecendo em documentários tendenciosos como alguns da BBC dão alguma legitimidade ao cenário de fim do mundo. Por duas razões, 1. as entrevistas são editadas para parecer que o cientista está reforçando que o calendário estava a se referir ao fim de uma época e ponto final. 2. porque os documentários geralmente terminam deixando a questão em aberto e autorizando o público a tirar suas próprias conclusões sobre um assunto cuja resposta é conhecida, mas o documentário faz parecer que não é. Isso tem grande impacto nas vidas das pessoas, há um caso de um homem que gastou tudo construindo um bunker.

  2. Parabens, também penso que o cientista deve ser tão ou mais responsável em suas posições públicas. Mas infelizmente em nosso país as paixões falam mais que a própria razão , isso permeia todas as profissões, inclusive dos pesquisadores e cientistas. Pessoas como você fazem a diferença !

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