Compreensão pública da ciência/Filosofia

O contexto da descoberta e o da justificação

https://curiosorealista.files.wordpress.com/2012/12/issac-newton.jpg?w=257Somos naturalmente curiosos e, por vezes, queremos saber sobre a validade daquilo que os cientistas apresentam como verdadeiro. Outras vezes desejamos saber mais sobre como chegaram àquela conclusão. Perguntas a respeito da credibilidade de um enunciado científico ou sobre como se deu o processo de descoberta são geralmente formuladas como segue: “como se deu tal enunciado?”, “como se descobriu isso?” ou “porque devo acreditar nisso?”. As duas primeiras pertencem ao que chamamos em filosofia da ciência de contexto da descoberta ao passo que a última pertence ao que chamamos contexto da justificação.

O contexto da descoberta relaciona-se com vários fatores não científicos (e. g., psicológicos ou socioculturais) que podem ter influenciado a condução de uma investigação, ao passo que o contexto da justificação relaciona-se com aqueles processos de raciocínio sobre evidências, replicação de resultados empíricos, construção de hipóteses, teste de teorias e assim por diante. Assim, o contexto da descoberta se relaciona a fatores criativos e inspirações para inciar uma investigação científica, como nas histórias contadas sobre a maçã que caíra sobre a cabeça de Sir Issac Newton fazendo surgir um inesperado insght criativo e levando-o a descobrir a gravidade ou na história sobre August Kekulé ter obtido a imagem da representação do benzeno durante um sonho no qual uma serpente engolia a própria cauda.

“Eu estava sentado à mesa a escrever o meu compêndio, mas o trabalho não rendia; os meus pensamentos estavam noutro lugar. Virei a cadeira para a lareira e comecei a cochilar. Outra vez começaram os átomos às cambalhotas em frente dos meus olhos. Desta vez os grupos mais pequenos mantinham-se modestamente à distância. A minha visão mental, aguçada por repetidas visões desta espécie, podia distinguir agora estruturas maiores com variadas conformações; longas filas, por vezes alinhadas e muito juntas; todas torcendo-se e voltando-se em movimentos serpenteantes. Mas olha! O que é aquilo? Uma das serpentes tinha filado a própria cauda e a forma que fazia rodopiava com graça diante dos meus olhos. Como se tivesse produzido um relâmpago, acordei;… passei o resto da noite a verificar as consequências da hipótese. Aprendamos a sonhar, senhores, pois então talvez nos apercebamos da verdade.” – August Kekulé, 1865.

O contexto da descoberta é o mais valorizado na mídia geral. Já o contexto da justificação se relaciona com a avaliação dos enunciados, de forma a saber se as premissas são verdadeiras ou falsas e, por fim, realizar a correção lógica do argumento científico, como no método desenvolvido por Descartes. De acordo com John Herschel, o primeiro passo do procedimento científico é subdividir os fenômenos complexos nas suas partes ou aspectos constituintes e fixar a atenção sobre as propriedades cruciais para a explicação dos fenômenos.

O método descrito por Herschel se assemelha ao método proposto por Descartes e ambos se apresentam no contexto da justificação. Este contexto de justificação é mais complicado de abordar na mídia e é muitas vezes omitido na divulgação científica. Isso se deve, em parte, às dificuldades inerentes a lógica subjacente ao raciocínio científico. Há quem tenha tentado unificar os dois contextos num só como John Stuart Mill que concebia o indutivismo, na sua forma mais abrangente, como uma tese tanto sobre o contexto da descoberta quanto sobre o contexto da justificação. O indutivismo de Mill foi muito criticado e hoje não é assumido como um método de sucesso. Como Sir Karl Popper demonstrara, o raciocínio indutivo gera erros e está repleto de problemas insolúveis.

Referências

GRANGER, G. G. A ciência e as ciências. São Paulo: UNESP, 1994.
LOSEE, J. Introdução histórica à filosofia da ciência. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.
NORRIS, Christopher. Epistemologia: conceitos-chave em filosofia. Porto Alegre: Artmed, 2007.
SALMON, Wesley C. Lógica. 3.ed. – Rio de Janeiro: LTC, 2009.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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