Compreensão pública da ciência

Discurso do utilitarismo

Em julho de 2012 cientistas identificaram a assinatura experimental do bóson de Higgs, que, até então, era uma partícula teórica. O achado foi importante para consolidar o modelo que descreve as partículas fundamentais do cosmos e suas interações, o que na física se conhece como modelo padrão. Uma parte da opinião pública acreditava que o experimento poderia extinguir a vida na terra e mesmo a parcela que não mantinha uma visão tão catastrófica sobre o experimento não compreendia exatamente o significado da investida científica. Em parte, a opinião pública voltou-se para o assunto devido à propaganda feita pelo físico Leon Lederman que publicou em 1993 o livro intitulado “The God particle: if the universe is the answer, what is the question?“. O nome “partícula de Deus” trouxe popularidade ao bóson de Higgs, mas também gerou confusão. Antes de o experimento dar algum resultado era comum ouvir da opinião pública que o homem estava a brincar de Deus. De que outra maneira a opinião pública teria tal direcionamento que não pela ponte oferecida pela “Partícula de Deus”. Sejamos justos, não se deve tirar o mérito de Peter Higgs.

Recordo-me de ter acompanhado os noticiários na época da descoberta e ter visto uma entrevista, em especial, que me chamara à atenção. Uma repórter aparentemente inteirada do assunto entrevistava um físico da USP e uma da UNESP. Próximo ao encerramento da entrevista, a repórter pergunta qual a aplicabilidade da descoberta. Os físicos se olham e tentam mostrar para ela que devemos nos contentar com saber mais sobre como as coisas são como são e não de outra forma. A repórter não consegue esconder a expressão de decepção e exclama: mas um experimento tão caro não pode ser só para satisfazer uma mera curiosidade!

Se você é um estudante de pós-graduação stricto sensu ou um pesquisador, é provável que lhe tenham dirigido a seguinte pergunta: “Para que serve sua pesquisa?” ou “Qual a utilidade disso para a sociedade?“. Esta é uma questão que há muito vem sendo discutida no meio científico. A questão do utilitarismo. Quando pleiteamos algum financiamento para nossas pesquisas somos perguntados pelas agências financiadoras se nosso trabalho irá gerar patentes ou produtos tecnológicos. Uma característica distintiva da ciência é o fato de ela visar o objeto essencialmente para conhecê-lo sem o intuito primeiro de agir sobre ele.

A sociedade sempre esteve mais interessada na aplicabilidade de uma descoberta que na satisfação de conhecer e isso pode determinar a quantidade de tempo gasto com uma pesquisa, bem como o montante de recursos investido nela. Seria esta uma tendência para a mudança de concepção de ciência? Não creio que seja desta forma. Se observarmos bem, a história nos mostra que nossa sociedade sempre valorizou mais as descobertas que poderiam se tornar produtos tecnológicos de curto prazo. Poucos se interessaram pelos trabalhos de Michael Faraday e James Maxwell sobre o eletromagnetismo. Apenas muitos anos mais tarde as equações foram usadas para governar os processos que fazem nossos eletrodomésticos funcionarem. Nós vemos os frutos da curiosidade de cientistas como Maxwell quando uma porta de aeroporto se abre para nós, por exemplo, sem que toquemos a maçaneta.

O discurso do utilitarismo fez brotar uma nova forma de classificar a ciência. Hoje a distinção entre ciência básica (aquela interessada em conhecer) e ciência aplicada (aquela interessada em agir) é quase oficial. A preocupação que tal distinção traz é que passamos a classificar a ciência com base em critérios mais políticos que epistemológicos ou com vistas a seus métodos.

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Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

6 pensamentos sobre “Discurso do utilitarismo

  1. O problema é que em diversos países os investimentos estão sendo direcionados fortemente para a parte aplicada; Em desdobramentos recentes, esta tendência se acentuou e o investimento é cada vez mais pesado em inovação, fazendo minguar os recursos para a ciência básica. No Brasil não é diferente, esta é a política adotada por CNPq e Capes que são agências financiadoras e acabam por determinar o caminho da pesquisa nas universidades e centros de pesquisa nacionais. Vale ressaltar que países como os EUA apostaram nessa tendência, depois mudaram a trajetória e voltaram a valorizar a pesquisa básica ao perceber que questões aplicadas ficavam travadas por falta de informações oriundas da busca apenas pelo conhecimento. Lamentavelmente é uma mudança apenas superficial, valorizam a ciência básica para que gere informações que sirvam à ciência aplicada e a inovação.Aparentemente estamos perdendo o amor ao conhecimento se ele não tiver aplicação prática imediata. Uma pena!

    • Estou a desenvolver uma ideia de que a pesquisa aplicada atrai mais o público por ser um híbrido de ciência e tecnologia e não a ciência na sua forma pura. Quanto à necessidade de valorizar a pesquisa aplicada num modelo de produção capitalista, creio que seja bem definida a ligação entre o consumismo exigido para o sistema se alimentar e a inovação tecnológica produzida pelas pesquisas aplicadas. No final das contas Arley, penso que estamos mesmo tentando reproduzir o modelo de ciência dos EUA. Isso, novamente, se deve às aplicações. Todo equipamento que compramos ou é da Alemanha ou dos EUA.

  2. Todas as vezes que dizia o título da minha dissertação para as pessoas, elas ficavam me olhando e se perguntando para que serve isso? Me dava uma angústia porque percebia o desisteresse das pessoas em descobrir mais sobre e a dinâmica dos ecossistemas…as vezes penso que o mundo realmente está perdido. Mas não sejamos pessimistas né, ainda há esperaça.

    • É Dayse, explicar o que fazemos não é tarefa fácil. Se você diz em público que o propósito de seu trabalho é conhecer algum fenômeno, as pessoas desdenham como se isso fosse perda de tempo. Não estamos acostumados a valorizar a ciência. O sistema valoriza a pesquisa aplicada porque ela é uma quimera de ciência com tecnologia.

  3. Penso que a opinião pública está condicionada ao que a mídia lhes fornece. Coisas como mudanças climáticas, Tecnologias no ramo da eletrônica e afins, estudos que impactam com valores ou causam alguma reação da sociedade são os que chamam a atenção por viverem nos noticiários. Ramos menos “famosos” são afastados do cidadão leigo. Por exemplo meu trabalho tem a ver com mudanças do micro-clima do cerrado, mas antes disso tem toda a aplicação de mecânica dos fluidos e transferência de calor, é uma abordagem um pouco conceitual e aplicada. Quando eu falo essa parte ninguém entende ou mostram um aparente desinteresse, porém quando quando pronuncio as palavras mudanças, clima e vegetação parece que o céu se abre em cima do indivíduo. As pessoas questionam simplesmente por não ter impacto direto ou não verem nada semelhante na tv ou revista. Um exemplo disso foi a interpretação que a mídia teve do pesquisador da NASA sobre o avanço dos sensores que analisam o solo e da transmissão de dados da missão Marciana. Todos queriam que ele encontrasse vida e não que a maquina desse uma prova de sua eficiência.

    • É, o próprio Grotzinger cometeu alguma gafe quando levantou a possibilidade que sabia ser improvável de encontrar qualquer vestígio de vida em Marte. Isso reforçou a crítica da mídia. Sabemos que se o instrumental usado pelo robô foi tão eficiênte e acurado nas análises automatizadas isso pode se reverter em tecnologia aplicada a curto prazo, inclusive.

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