Compreensão pública da ciência/Sociedade

Política de produtividade e livros

No empreendimento de discussões nos meios científicos é frequente o enfoque sobre resultados e métodos empregados no desenvolvimento de uma pesquisa publicada em forma de artigo. O artigo ou paper é a referência para a discussão. Algumas vezes, princípios básicos de todas as ciências, tal como parcimônia, são ignorados, outras tantas uma discussão mais densa é abandonada em favor dos métodos. Os diálogos são extremamente técnicos, abordando desde os métodos de validação experimentais até a acurácia de um instrumento de medida. Tamanha especialização das conversas me leva à pergunta “o que lê o público especializado da ciência?”.

Os trabalhos científicos são publicados em revistas tão especializadas que, em alguns casos, nem mesmo os cientistas conseguem compreender a matéria de imediato. Para fins de divulgação, está claro que as revistas ou jornais científicos não são uma estratégia muito eficaz. Por este motivo, existem as revistas magazines de divulgação científica (e. g. Scientific American, Mente & Cérebro). Os periódicos científicos são escritos por especialistas para um público ainda mais especializado, afastando o conteúdo e a compreensão científica da população. Não estou sugerindo que devêssemos passar a publicar em revistas de cultura pop, mas que a superespecialização em detrimento de temas mais gerais pode nos trazer problemas para integrar as diferentes áreas de pesquisa. A política de produtividade nos obriga a publicar em revistas com elevados fatores de impacto, aquelas que são lidas mais vezes e citadas com maior frequência. Tal obrigação nos faz dedicar horas aos tais artigos superespecializados.

Sabemos que publicar artigos nas revistas com mais altos fatores de impacto nem sempre é uma expressão real da qualidade do trabalho quando comparado a outros artigos publicados em revistas de menor impacto. O que de fato tal política faz é manter as revistas pequenas sempre pequenas e as grandes sempre grandes. Há, inclusive, evidência de que publicações de países da América Latina são menos citados em jornais de maior prestígio. A produtividade de um pesquisador é medida pela quantidade de artigos publicados e, embora o sistema recentemente tenha incorporado índice para livros, nossos cientistas ainda têm grande parte de seu trabalho desvalorizado. Um livro é uma produção mais densa e a política de produtividade tem fomentado a cultura da desvalorização dos livros.

Nas rodas científicas percebemos as limitações de discussão da nova geração de cientistas habituados apenas às leituras de artigos. Como discutir textos com conteúdo tão denso sobre evolução sem se prestar a ler os clássicos livros de Edward Wilson, Richard Dawkins, Konrad Lorenz ou do próprio Darwin. Para discutir em profundidade uma matéria clássica é necessário conhecer os pais da matéria em questão. Quero dizer, aqueles cientistas que deram as primeiras contribuições ou mesmo as mais recentes para que nosso conhecimento se desenvolvesse. Cientistas não podem se privar de acompanhar os avanços e novidades que saem todos os meses em artigos publicados, mas não podem usar isso como desculpa para não proceder a leitura de bons livros, fundamentalmente os de divulgação científica. Estes últimos fornecem um bom quadro de como nossas pesquisas estão chegando ao público interessado. Os livros são importantes e, ao que parece, a cada geração que se passa estamos esquecendo esse detalhe.

Leitura sugerida:

Meneghini R, Packer AL, Nassi-Calò L (2008) Articles by Latin American Authors in Prestigious Journals Have Fewer Citations. PLoS ONE 3(11): doi:10.1371/journal.pone.0003804

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Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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