Compreensão pública da ciência

A quem cabe o dever de divulgar a ciência?

Por que divulgar a ciência é tão importante? Há bastante tempo que venho tentando dar visibilidade a certos conceitos familiares ao meio acadêmico. Conceitos como micro-RNA, splicing alternativo, contingência do conhecimento, parcimônia, validação lógica, evolução, entre outros têm sido abordados aqui no blog. Não é difícil encontrar quem reconheça a importância de dar publicidade à ciência, mas ainda há quem acredite que a ciência é algo demasiado esotérico. Arrisco-me no palpite que, quem sabe, a maior parcela da população tome a ciência como algo esotérico.

Em nosso dia-a-dia lidamos com os produtos do trabalho científico. Quando falamos ao celular ou navegamos na internet estamos a usufruir de produtos tecnológicos originados do trabalho científico. Não tenho dúvidas de que jamais atingiríamos tal nível de avanço tecnológico e alguma qualidade de vida valendo-se de outros domínios de conhecimento que não o científico. Mas meu pensamento se ajusta ao da comunidade científica em geral. Peter Medawar e Marcelo Gleiser defendem que só a ciência é capaz de levar a luz a uma sociedade. Quero apontar alguns benefícios de se fazer com que a sociedade em sua totalidade assimile a cultura científica começando pela opinião do professor Knobel.

Em uma sociedade onde a ciência e a tecnologia são agentes de mudanças econômicas e sociais, o analfabetismo científico, seja de quem for, pode ser um fator crucial para determinar decisões que afetarão nosso bem-estar social (Marcelo Knobel).

Estando de acordo com Knobel, cabe um esclarecimento: não se trata da defesa de que cada pessoa deva conhecer todos os conceitos mascarados pela interface amigável de um computador ou mesmo que devamos estar familiarizados com a engenharia de um smartphone. O que o discurso sugere é que devemos ter conhecimento dos conceitos básicos de todas as ciências e estar familiarizados com o procedimento científico. Novamente, isto não quer dizer que devemos ser todos cientistas, mas que devemos ter boas razões para depositar credibilidade no discurso científico. De modo geral, acreditamos no que dizem os cientistas por que observamos a tecnologia funcionando. Mas ficamos impressionados se, com um toque, transferimos uma imagem da tela do celular para a da TV. Se estivéssemos familiarizados com o conceito de ondas talvez as propagandas nos parecessem menos empolgantes.

Se assimilássemos a cultura científica não seríamos enganados pelos charlatões quânticos que usam do analfabetismo científico do público para enriquecer. De fato, procede a história de pessoas que usam de um tal toque terapêutico sob um discurso obscurantista de que há campos de energia desbalanceados no corpo que precisam ser ajustados para curar as doenças. Há quem abdique da terapia convencional em favor deste tipo de engodo convencidos pelo discurso.

Especialmente no Brasil, sinto que temos grande dificuldade de fazer divulgação científica. São poucos os cientistas que se  dispõe a ampliar a compreensão pública de ciência. Muitos pesquisadores acreditam que fazer divulgação científica não é um trabalho do cientista. Faço parte do time que acredita ser nosso trabalho e de mais ninguém. Quando deixamos que a mídia não especializada faça nosso trabalho as coisas ficam como no dramático exemplo que tem circulado pela internet:

1. Como os cientistas publicam nos periódicos especializados: Variações do gene transportador de serotonina podem estar associadas ao processamento seletivo de estímulos emocionais positivos e negativos.
2. Como as revistas sensacionalistas publicam: Descoberto o gene da felicidade.
3. Como o público não especializado entende: Se eu tiver o gene sou feliz, se não tiver sou triste.
4. Como os críticos entendem: Esses malditos cientistas dizem que nossa felicidade é totalmente determinada geneticamente, vamos tacar fogo neles.

A sequência de eventos é: os cientistas publicam em periódicos altamente especializados que jamais serão lidos pelo público geral e acham que contribuíram o suficiente para a compreensão pública da ciência. A mídia não especializada está preocupada com a audiência e as vendas, então usa o sensacionalismo para chamar a atenção e frequentemente comete gafes. A audiência pública terá acesso às revistas/mídia sensacionalistas e não ao periódico especializado, que frequentemente é de acesso restrito. Os críticos farão sua análise baseados no que foi divulgado (lembre-se que o verdadeiro trabalho não foi divulgado, pelo menos não adequadamente) e na manifestação da opinião pública que está fundamentada nas revistas de grande alcança, as sensacionalistas. Este quadro não é raro. Na verdade, é a regra da divulgação científica no Brasil.

Seja por meio de blogs, páginas pessoais ou, fundamentalmente, livros nossos cientistas precisam começar a dar mais importância à compreensão pública da ciência. Assim, teremos a garantia de que nosso trabalho poderá alcançar o público sem distorções e o público terá a garantia de que está a tomar conhecimento de fatos e não de especulações aberrantes.

Referências sugeridas:

Marcelo Knobel. Tendências/Debates: Abuso quântico e pseudociência. in Opinião, Folha de São Paulo. 02/12/12.
Rosa L, Rosa E, Sarner L, Barrett S. A Close Look at Therapeutic Touch. JAMA. 1998;279(13):1005-1010. doi:10.1001/jama.279.13.1005.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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