Filosofia

O que é real?

404014_385883251483361_2137474179_nQuando crianças, a fantasia habita nosso imaginário e chegamos a confundir o real com a fantasia. Quando adultos a realidade às vezes parece tão dura que desejamos a fantasia ao mundo real. Criamos fantasias para suportar a realidade. As religiões cumprem este papel de um lado. Mas uma vertente do pensamento acadêmico parece estar comprometida com a aceitação de muitas realidades distintas e não uma em especial. Há quem defenda a existência de uma única realidade e que esta é absoluta. Há quem defenda a existência de duas realidades como Platão, uma sensível (das experiências) e outra inteligível (do conhecimento a priori). Não estou inclinado a aceitar qualquer da duas. Simpatizo com a visão de Karl Popper sobre a possibilidade de três mundos: um objetivo, um dos nossos pensamentos e outro que é o produto da interação entre os dois primeiros.

Esta é uma compreensão mais sofisticada do que é real conhecida como a tese dos três mundos de Popper. Contudo, estou interessado numa abordagem um tanto diferente. Ela parece mais com a proposta de Richard Dawkins no livro A magia da realidade. Por julgar que Dawkins fez seu trabalho muito bem não pretendo repeti-lo aqui. Quero apresentar um modelo explicativo desenvolvido pela artista gráfica Tracie Harris. O “modelo da falácia de Tracie” funciona muito bem para demonstrar a necessidade da presença de alguns atributos que, de maneira mais geral, dão sentido ao conceito de existência.

No modelo são apresentados três frascos de vidro com as mesmas características, porém de conteúdos diferentes. O primeiro frasco contém alguns dados (frasco dos dados existentes), isso mesmo, aqueles dadinhos de jogos de tabuleiro, o segundo frasco não possui conteúdo (frasco dos dados inexistentes) e o terceiro também não tem (vamos assumir que esse é o frasco dos dados transcendentais). Quando colocado desta forma é fácil assumirmos que os frascos contêm aquilo que foi proposto. Porém, ao misturar os três frascos e retirar as etiquetas é que o modelo de Tracie se torna interessante. Se, ao observador, for solicitado que identifique qual dos recipientes contém os dados existentes ele rapidamente distinguirá o frasco cuja presença de dados é perceptível à visão, sacudirá o frasco notando que os dados produzem sons ao entrar em contato com a superfície de vidro, ou ainda, tomará a medida dos frascos identificando aquele com maior massa. O que nos interessa é a existência de características, para além daquelas que podem ser vistas, cuja medida nos permite inferir sua existência. Caso solicitemos ao observador que identifique o frasco dos dados inexistentes ele terá dificuldades para diferenciá-lo do frasco transcendental e acabará por recorrer ao chute ou, simplesmente, à fé.

Poderíamos representar estes elementos por meio de conjuntos. Conjunto contendo “x”, conjunto vazio e conjunto contendo “y” com atributo do conjunto vazio, mas julgo que tornaria a explicação menos atraente. Contudo, fornece uma boa demonstração matemática de como atributos transcendentais são inconsistentes com a natureza. Os frascos de Tracie revelam o problema de distinguir entre o que é transcendente e o que não é real. Simplesmente não há características ou atributos que nos permitam diferenciá-los. Assim, entidades transcendentais, no que diz respeito aos atributos, são equivalentes a entidades não existentes.

Podemos ainda solicitar que o observador faça uma estimativa de quantos dados há no frasco dos dados existentes. Com alguma sorte o observador não acertará a quantidade na primeira tentativa, mas apresentará um valor aproximado. Diremos a ele que nosso palpite é dez mil vezes superior ao valor por ele apresentado. Para nosso constrangimento, o observador rir-se-á de nossa absurda suposição. O que pretende-se com isso é demonstrar que, embora ambos tenhamos apresentado nada mais que palpites sobre a quantidade, não se admite todo tipo de suposição somente pela restrição de testes. Isto porque há certas coisas que sabemos a respeito do volume do frasco e dos dados, o que torna certos tipos de suposição, simplesmente, absurdas.

Por fim, pede-se que o observador se arrisque num palpite sobre a quantidade de dados transcendentes e sobrenaturais no frasco de dados transcendentais. Depois de ouvir o palpite do observador, diremos a ele que acreditamos ser o número de dados ali presente dez mil vezes superior ao seu palpite. Considerando que estamos falando do frasco de dados transcendentais, nossa suposição não mais parecerá absurda. Isto porque, de fato, nada sabemos sobre os dados transcendentais. Não há maneira de distingui-los do nada.

Este é o tipo de problema que surge quando nos comprometemos com a existência de qualquer fenômeno não-natural. Por isso dissemos que a ciência nos fornece as melhores ferramentas para compreender a natureza e a realidade. Usando tais ferramentas, o viés do observador é eliminado. Qualquer pessoa pode chegar às mesmas conclusões seguindo a descrição do procedimento científico, provando que, de fato, há certa regularidade na natureza.

Uma argumentação antirrealista defende que mesmo as bases conceituais que usamos nas áreas mais produtivas da ciência podem não ser reais. A crítica se baseia na percepção de que não se mede o conteúdo de verdade de uma atividade pelo sucesso relativo desta atividade.

Com base nisso, alguém poderia questionar a validade de explicações tão fundamentais quanto aquela relativa à replicação do DNA. Hoje podemos dizer com bastante segurança que sabemos muito a respeito de como o DNA se replica em vários tipos de células. Somos capazes de descrever o processo com uma riqueza de detalhes que nem o melhor dos historiadores do século XVIII poderia prever. Os experimentos realizados para demonstrar cada etapa possuem controles tão rigorosos que ninguém em sã consciência duvidaria da correção dos achados. Muitos filósofos não estão familiarizados com o procedimento de demonstração experimental e por isso duvidam da validade de explicações científicas.

Leitura sugerida

Richard Dawkins. A magia da realidade: como sabemos o que é verdade.
Karl Popper and John Eccles. The Self and Its Brain: An Argument for Interactionism.
Tracie Harris. Modelo da Falácia da Tracie (1/5) – The Atheist Experience #593
Este texto também foi publicado pelo site da Sociedade Racionalista.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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