Compreensão pública da ciência

Memória da água: as aventuras de Benveniste

Last_Drop_by_aherminCerta vez me foi solicitado que falasse sobre o que é a homeopatia e, instantaneamente, lembrei do majestoso Rio Amazonas. Minha explicação seguiu assim: Suponha que um parente querido encontra-se tomado por uma terrível febre do outro lado do Rio, que por sinal não se vê o fim no horizonte. Você é detentor do terrível hábito de comprar medicamentos nas drogarias sem prescrição médica. Seguindo o curso dos eventos você compra um antipirético que deverá ser oferecido a seu parente moribundo. Contudo, você não sabe a dose correta e seu parente não pode comprar por si mesmo o medicamento. Você deve encontrar uma maneira de levar o mais rápido possível o medicamento até seu parente que não pode comprá-lo. Você lembra de ter ouvido um amigo falar sobre homeopatia. Sua vaga lembrança remete a um método seguro e funcional, basta diluir! Você se apressa em despejar o conteúdo líquido do frasco do antitérmico no Rio Amazonas e voilà, está feita sua diluição homeopática. Deixe que a maré faça o trabalho de homogeneizar, espere 24 horas e então entre em contato com seu parente. Peça que se dirija até a margem do Rio e tome uma porção da água medicinal três vezes ao dia. É possível que seu parente lhe mande uma correspondência um tanto mal-humorada em resposta a sua oferta de tratamento.

Imagino que alguém possa me dirigir críticas pela forma dura como trato a homeopatia, mas sabe de uma coisa. Minha história não é uma metáfora para depreciar a tal terapia. É exatamente isto que ocorre numa proporção menor. A homeopatia lida com água como se fosse medicamento. Estou certo que meus críticos devem conhecer a história da terapia. Até o presente momento a única tentativa de oferecer alguma base confiável para a homeopatia veio de um lado inesperado. Jacques Benveniste (1935-2004), um prestigiado imunologista francês, propôs que a água poderia armazenar as propriedades das substância que um dia estiveram presentes nela. Esta proposição ficou conhecido como memória da água.

Benveniste é responsável pela descoberta do fator de ativação plaquetária (Paf) envolvido em processos inflamatórios. Sem dúvida uma valiosa contribuição cientifica. No entanto, o cientista foi tomado pela paixão de um insight criativo ao qual me referi no texto “As vestes da autoridade“, já publicado aqui. Benveniste conseguiu de maneira surpreendente colocar seus resultados com altas diluições de histamina numa das revistas de maior prestígio no meio científico, a Nature. O artigo foi aceito com muito ceticismo tanto por parte dos referees quanto dos leitores, o que levou o, a época, editor John Maddox a tomar uma atitude também surpreendente. O editor liderou uma equipe de investigadores independentes para observar as repetições dos experimentos no laboratório de Benveniste. Dando seguimento às surpresas, os resultados não foram replicados. Após os testes não confirmarem os resultados com altas diluições, foi publicado na própria revista um report esclarecendo como os dados de Benveniste estavam enviesados.

“We believe that experimental data have been uncritically assessed and their imperfections inadequately reported.” (Nature)

Benveniste foi afastado da academia e resolveu fundar uma empresa chamada DigiBio cujo objetivo seria unificar aplicações de biologia molecular e computacional. Novamente, de uma maneira nada convencional! Benveniste propôs que além de a água preservar memória das substâncias diluídas, esta memória poderia ser digitalizada e enviada na forma de dados via e-mail para ser decodificada e aplicada em uma nova amostra de água para tratamento. Transferência de princípio ativo por e-mail!

O cientista morreu sustentando que suas pesquisas não foram compreendidas e, hoje, pelo equivalente a $ 1.ooo dólares você pode adquirir seu próprio kit digital para tratamento homeopático através da DigiBio. Ao que tudo indica, se a água  tem alguma memória, ela vem acompanhada de um terrível Alzheimer. Nós da comunidade cientifica, por outro lado, sempre lembraremos da história de Benveniste como o grande cientista que foi, mas também pelos erros que cometeu.

Leitura sugerida:

Simon Singh. BBC News Health: Could water really have a memory? 2008.
Philip Ball. The memory of water: Nature News. 2004.
BBC Horizons. Homeopathy: the test.
Stephen Pincock. Jacques Benveniste. The Lancet, volume 364, issue 9446, page 1660, 6 november 2004. doi:10.1016/S0140-6736(04)17339-X
Entrevista com Drauzio Varella. Roda Viva, 2011.
James Randi no Ted Talks.
Edzard Ernst. Homeopathy: what does the “best” evidence tell us? Med J Aust 2010; 192 (8): 458-460.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

6 pensamentos sobre “Memória da água: as aventuras de Benveniste

  1. Sim, a água tem memória, mas a única maneira de ativar essa memória é congelando a água. Uma vez congelada ela “memoriza” o formato do recipiente onde estava. kkkk

  2. Eu rachei de rir aqui, uma boa crítica à homeopatia e bem humorada hehe…vou diluir um Quissuque de laranja num copo com água pura e transformar numa poderosa vitamina-C, acho q vou até patentear e vender nas farmácias para concorrer com Redoxon e Targifor-C hehe….

    • Caro Roberto, suponho que seja homeopata. A comparação com o Rio Amazonas, como qualquer leigo pode notar, é meramente ilustrativa, metafórica e hiperbólica. No entanto, isso não coloca a homeopatia em condições melhores. É mais fácil reproduzir um experimento que exige clonagem e expressão de genes (não é tarefa fácil) que reproduzir resultados usando altas diluições de drogas. É fácil selecionar alguns papers na literatura que depõem em favor da prática. Contudo, se há uma coisa na ciência que se aprende desde cedo é que as proibições são mais importantes. Assim os papers que depõem em desfavor da homeopatia são mais reveladores que os demais.

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