Compreensão pública da ciência/Política

Quando a criatividade falha

A ciência é solo fértil para a criatividade. Cientistas do mundo todo ganham notoriedade e se tornam referência como consequência dos resultados obtidos ao longo de suas carreiras. Contudo, não é fácil conseguir resultados extraordinários. Obter resultados revolucionários exige um misto de criatividade e sorte, sem contar os recursos. Nos casos em que a sorte é um fator a ser considerado, tropeçamos num resultado tão inesperado quanto revelador e que pode vir a determinar uma abordagem diferente da original para nossa pesquisa. A criatividade, por outro lado, não é orientada ao acaso e nos momentos em que ela falha as consequências podem ser dramáticas: de um laboratório improdutivo a uma carreira de fachada.

Recentemente, um grupo de cientistas brasileiro se envolveu num episódio bastante constrangedor. Após ter alguns resultados duramente criticados no blog Science Fraud, as revistas nas quais os trabalhos foram publicados decidiram exigir retratação e uma chegou mesmo a retirar o artigo. Se você acha que um blog não poderia causar tanto barulho, é por que não foi apresentado a Paul Spencer Brookes, responsável pelo Science Fraud. Paul é um importante pesquisador do University of Rochester Medical Center (EUA) no campo de mitocôndrias. O blog de Paul revelava indícios de fraude em resultados de artigos já publicados, mas acabou por sair do ar após a pressão dos advogados dos grupos denunciados. O caso dos pesquisadores brasileiros está a ser investigado na tentativa de esclarecer se trata-se de erros, como os autores admitiram, ou de fraude legítima.

Não é de hoje que a ciência sofre com este tipo de conduta. Em 2011 o psicólogo Marc Hauser renunciou seu posto em Harvard após sofrer investigações que apontaram sua má conduta em, pelo menos, quatro projetos que receberam financiamento governamental. Em 2004, o cientista sul-coreano Woo Suk Hwang declarou ter gerado células tronco a partir de clones de embrião. Após sucessivas tentativas de reproduzir, sem sucesso, os resultados de Hwang, investigações foram feitas e levaram o cientista a, dois anos mais tarde, admitir ter falsificado dados. Em 2009, Hwang foi sentenciado a dois anos de prisão por violar as Leis bioéticas do país e por extraviar o equivalente a US$ 700.000 de verbas públicas.

Casos de carreira aparentemente brilhante incluem o cientista Eric J. Smart, ex-pesquisador da University of Kentucky (EUA). Investigações levaram à conclusão de que o pesquisador havia falsificado dezenas de imagens em 10 artigos já publicados. Apenas recentemente uma das revistas publicou uma retratação formal. Outro caso é o de Terry S. Elton da Ohio State University (EUA), quem foi acusado de falsificar e/ou fabricar dados em seis artigos e diversos relatórios. O Office of Research Integrity (ORI) é o órgão responsável por apurar estes casos e sugeriu a retratação de Terry nos casos relatados de fraude. Nem sempre a falsificação é a ferramenta de uma criatividade deficiente como mostrou o cientista Dongqing Li, quem foi suspenso por quatro meses (sem salário) como resultado de investigações que apontaram plagiarismo em um de seus artigos.

Parece haver um lado malicioso em muitos cientistas como Vipul Bhrigu, ex-aluno de pós-doutorado da University of Michigan (EUA). Bhrigu sabotou experimentos de uma colega de laboratório adicionando álcool aos meios de cultura usados por ela. A estudante de graduação desconfiada instalou uma câmera escondida no laboratório e flagrou a sabotagem. Pelos crimes cometidos, Bhrigu foi sentenciado a pagar em torno de US$ 8.800 em reagentes e materiais, realizar 40 horas de serviço comunitário e se submeter à avaliação psiquiátrica.

Mesmo com tantos relatos de má conduta por parte de diversos cientistas, seria precipitado assumir que a culpa é exclusivamente do cientista. Há relatos de laboratórios extremamente competitivos onde o pesquisador principal coloca seus alunos de pós-doutorado em disputa. Algo como entregar o mesmo projeto a ambos e proclamar “quem terminar primeiro publica!“. Aparentemente uma disputa ingênua, mas este tipo de publicação provavelmente será submetida a um jornal com altíssimo fator de impacto, o que desperta um voraz interesse na empreitada.

Responder que razões levam pesquisadores a praticar este tipo de conduta não é tarefa fácil. Quem sabe este seja um reflexo da política “publique ou pereça”. Quem financia quer ver resultados na forma de publicação e nessa lógica quanto maior o número de publicações melhor. A corrida armamentista entre grupos de pesquisa para ver quem publica primeiro também acaba por prejudicar a qualidade dos artigos. Os prazos frequentemente não ajudam como é o caso dos programas de mestrado que exigem uma boa publicação ao final de dois anos. Os iniciados na prática científica sabem que nas fases iniciais de qualquer pesquisa dispensamos muito de nosso tempo em procedimentos de padronização (i.e., tentando acertar a mão nos experimentos).

Talvez a saída para este cenário de desespero venha da  prática de uma ciência mais lenta e de cientistas mais pacientes. A Slow Science Academy (Alemanha) publicou em 2010 um manifesto em favor da slow science. Encerro este texto com um fragmento do manifesto:

“A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler, e tempo para fracassar. A ciência nem sempre sabe onde ela se encontra neste exato momento. A ciência se desenvolve de forma instável, através de movimentos bruscos e saltos imprevisíveis à frente. Ao mesmo tempo, contudo, ela muitas vezes emerge lentamente, e para isso é preciso que haja estímulo e reconhecimento. Durante séculos, slow science foi praticamente a única ciência concebível; para nós, ela merece ser recuperada e protegida. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo de que eles necessitam, e os cientistas precisam ter calma […].

Referências sugeridas:

Fernando T. Moraes. Revista “despublica” artigo de cientistas acusados de fraude. Folha de São Paulo, 05/01/2013.
Reinaldo J. Lopes. Autor de denúncia de fraude revela sua identidade e faz mea culpa. Folha de São Paulo, 05/01/2013.
Fernando T. Moraes. USP e CNPq vão apurar suspeita de fraude em artigos. Folha de São Paulo, 08/01/2013.
Ivanoransky. Former Harvard psychology prof Marc Hauser committed misconduct in four NIH grants: ORI. Retraction Watch. September, 2012.
David Cyranoski. Woo Suk Hwang convicted, but not of fraud. Nature, 461, 1181 (2009) | doi:10.1038/4611181a.
Ivanoransky. First retraction for Eric Smart, who faked dozens of images, appears in PNAS. Retraction Watch. January, 2013.
John E. Dahlberg. Case summary: Elton, Terry S. Office of Research Integrity. December, 2012.
Brendan Maher. Research integrity: sabotage! Nature 467, 516-518 (2010) | doi:10.1038/467516a.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves está licenciado sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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