Compreensão pública da ciência/Psicologia

O arquétipo da ignorância

Você já deve ter sido vitimado pela situação de ter que responder uma pergunta cuja resposta lhe devia ser familiar e, no entanto, não fazia a menor ideia de como responder. É possível ainda que alguns pensamentos relacionados à pergunta lhe tenham ocorrido, mas nenhum que lhe fosse útil para construir uma resposta. Esta é uma experiência pela qual todos passamos algumas vezes durante a vida. Isso mostra o quanto somos ignorantes a respeito de muitas coisas simples ao nosso redor. Se, por um lado, a experiência pode nos tornar mais humildes diante do mundo, por outro, ela pode conceder uma certa arrogância por parte de quem busca a compreensão de tudo. Frequentemente atribuímos uma certa autoridade aos nossos bons cientistas, o que parece autorizar alguns a usar a insígnia da arrogância. Isso é devido ao estereótipo do cientista que para tudo tem a explicação. Como desenvolvemos este estereótipo? ele é uma projeção da realidade? são as questões deste texto.

Em termos Junguianos, há certos arquétipos que habitam o inconsciente coletivo. Isto é, se lhe fosse solicitado que projetasse a imagem de alguém sábio, imediatamente seu cérebro buscaria um homem vetusto, possivelmente com uma barba longa e, quem sabe, habitando uma montanha no Tibet. Esta parece ser uma imagem coletivamente compartilhada, o que quer dizer que para qualquer grupo no planeta algum indivíduo terá esta imagem. Longe de ser baseada num critério racional, a imagem do sábio é na verdade produto de uma falha lógica. O que isso quer dizer? o próprio Jung explica que os arquétipos surgem por meio de experiências repetidas ao longo de muitas gerações. É como se o inconsciente coletivo estivesse adaptado à lógica indutiva, aquela que se dá por meio da generalização a partir da repetição de casos particulares, mas nesse caso, com um gigantesco número de eventos observados.

A imagem que fazemos do cientista que nunca falha e sempre tem a explicação para todas as questões que normalmente não sabemos a resposta se constrói da mesma forma. Embora não seja um arquétipo Junguiano clássico, a comparação serve bem para fins explicativos. O inconsciente coletivo atribui uma autoridade ao cientista (Cf. o texto “As vestes da autoridade“) que parece exigir onisciência em troca.

De fato, o cérebro do cientista não é treinado para tudo saber, mas, o contrário, é treinado para ser altamente especializado e preocupado com certas minudências. O que, de fato, nos torna mais restritos em relação ao conhecimento. Diferente do inconsciente coletivo, o raciocínio predominante no meio científico é o dedutivo. Na literatura, um dos personagens que melhor representa a personificação da ciência é Sherlock Holmes de Sir Arthur Conan Doyle. Num dos diálogos entre Watson e Holmes, Watson se surpreende com o desconhecimento de Holmes a respeito da composição do sistema solar. Holmes não sabia que a Terra girava em torno do Sol e, após a explicação de Watson, diz: “Pois, agora que sei disso, tratarei de esquecê-lo o mais depressa possível.” Em seguida explica os motivos como segue:

Considero o cérebro de um homem como sendo inicialmente um sótão vazio, que você deve mobiliar conforme tenha resolvido. Um tolo atulha-o com quanto traste vai encontrando à mão, de maneira que os conhecimentos de alguma utilidade para ele ficam soterrados, ou, na melhor das hipóteses, tão escondidos entre as demais coisas que lhe é difícil alcançá-los. Um trabalhador especializado, pelo contrário, é muito cuidadoso com o que leva para o sótão da sua cabeça. Não quererá mais nada além dos instrumentos que possam ajudar o seu trabalho; destes é que possui uma larga provisão, e todos na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o dito quartinho tem paredes elásticas e pode ser distendido à vontade. Segundo as suas dimensões, há sempre um momento em que para cada nova entrada de conhecimento a gente esquece qualquer coisa que sabia antes. Consequentemente, é da maior importância não ter fatos inúteis ocupando o espaço dos úteis.

Holmes explica bem a situação e, particularmente, devo admitir que nunca aprendi a diferenciar os meses que têm 30 dias dos de 31. Ignorando todas as explicações até hoje oferecidas insisto em não saber. Não se trata de inteligência, mas de filtrar o que é importante para sua vida. O arquétipo do cientista se origina de uma falha lógica do inconsciente coletivo e não encontra correspondência com o mundo real. Portanto, da próxima vez que você não souber a resposta, não entre em pânico. É natural não sabermos muitas coisas que aparentemente são comuns a um grande número de pessoas.

Referências sugeridas

Arthur C. Doyle. Um estudo em vermelho.

Carl G. Jung. Os arquétipos e o inconsciente coletivo.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

4 pensamentos sobre “O arquétipo da ignorância

    • É Joacy, há tal comportamento em todo grupo que seja detentor de autoriade, seja ela de que natureza for. Entre professores, cientistas, políticos, filósofos, jornalistas, a lista tende ao infinito. Este comportamento visa salvaguardar a autoridade conquistada. O problema é que a autoridade não foi conquistada desta forma, mas parece ser perpetuar com tal ranço.

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