Compreensão pública da ciência/Educação

Devagar com o ceticismo

Vagando por minhas leituras e discussões frequentemente cruzo com alguém que sustenta uma postura cética bastante incomoda. É como se nada fosse válido ou fosse impossível acessar o conhecimento sobre a natureza. De fato, este é o sentido geral do ceticismo como postura filosófica, a impossibilidade de se conhecer. Muitos confundem esta postura com aquela que um cientista deve manter. O problema que tal visão cética encerra é que qualquer modelo explicativo incompleto deveria ser abandonado, pois não é capaz de acessar a verdade (inacessível) da natureza. Sobre isto, encorajo a leitura do texto “O valor da incerteza” já publicado aqui. Por que um modelo não explica completamente um fenômeno não significa que ele deva ser abandonado, como descreve o filósofo Granger:

“[…] a história das ciências mostra-nos, com efeito, conflitos entre teorias concomitantes, como, por exemplo, a ocorrência, nascida no século XVIII e ainda viva no século XIX, entre uma teoria corpuscular e uma teoria ondulatória da luz. Neste caso, ambas explicam essencialmente os mesmos fenômenos, mas cada uma relega à outra explicar certos fatos que representa mal.

Há quem defenda que a teoria do Big Bang não passa de uma tolice filosófica visto que não há dados experimentais sobre um tal átomo super comprimido. A despeito dos dados empíricos que o telescópio Hubble tem nos fornecido, ainda há quem sustente que a expansão do universo provavelmente não está acontecendo e que não encontramos o bóson de Higgs. Se você compartilha deste tipo de visão, saiba que a postura cética pode colocá-lo à margem da ciência. Você pode ser o que, nos bastidores da ciência, chamamos de Quack, um termo jocoso para denominar pessoas que têm delírios de conspiração aliado a certo desgosto pela prática científica.

Recentemente, me chamou a atenção o caso de Mohammad Shafiq Khan. O físico acredita que as limitações das ciências físicas e biológicas sugerem a necessidade de uma ciência teísta. Ignoro as razões pelas quais não terminou seu doutorado! Nas palavras de Shafiq:

“Eu desafio abertamente todos os professores, pesquisadores e professores de física/filosofia da física a apresentar e mostrar-me onde estou errado ou então eles tem que aceitar que estão ensinando física incorreta com base em truques.”

O físico publicou dois artigos sugerindo que as manipulações matemáticas usadas para validar teorias como a relatividade, o Big Bang e o conceito de espaço-tempo tornaram a natureza subserviente a caprichos matemáticos. A crítica é especialmente dirigida à eletrodinâmica de Einstein. É importante notar que, embora as manipulações matemáticas ocorram, elas são baseadas em nosso conhecimento do mundo natural. Um bom exemplo é dado por um procedimento matemático chamado transformação de Lorentz. Hendrik Lorentz percebeu que o eletromagnetismo não atendia ao princípio da relatividade usando as transformações de Galileu e, por isso, desenvolveu as chamadas transformações de Lorentz para fazer com que as leis do eletromagnetismo fossem as mesmas em qualquer referencial, atendendo assim ao postulado da relatividade que assume: Não existe referencial absoluto. As leis da física são as mesmas para todos os referenciais inerciais (i.e., em repouso).

O procedimento realizado por Lorentz é o alvo das críticas de Shafiq. A relatividade não foi concebida por Einstein como bem sabem os físicos, mas por Galileu. Em todo caso, as transformações de Galileu tinham problemas e precisam de ajustes matemáticos para entrar em conformidade com as observações. Alguns críticos poderiam sugerir que a única restrição a velocidades maiores que a da luz são matemáticas. Qual a razão da restrição matemática? Quando aplicamos aos cálculos velocidades maiores que a da luz surge uma raiz de número negativo, o que é matematicamente destituído de sentido. Portanto, a matemática proíbe o uso de velocidades maiores que a da luz.

Vasculhando nossa memória é possível lembrar o episódio em que cientistas do CERN divulgaram ter encontrado neutrinos que viajavam a velocidades maiores que a da luz. Tal revelação poderia mudar completamente nosso entendimento sobre como o universo funciona. Havia um certo desejo de destronar Einstein, seria uma grande matéria de capa. Ocorre que pouco tempo depois se descobriu que os resultados eram fruto de um erro no sistema de medição do aparelho. Cientistas brasileiros já haviam sugerido que a medição de velocidade estava incorreta, o que hoje é conclusivo.

Há maneiras empíricas de demonstrar que as ideias de Einstein são consistentes sem a necessidade de invocar artifícios como o conjunto dos números complexos ou assumir que raízes de números negativos são válidos, como o fez Charles Musès ao admitir velocidades superiores a da luz. Este comportamento cético tem duas consequências graves: confunde o público de um lado fazendo-o acreditar que este deve ser o padrão comportamental do cientista e leva os entusiastas à margem da ciência relegando-os ao esquecimento.

Dentro da ciência este comportamento tem vida curta como demonstra o caso do ex-cirurgião Andrew Wakefield. Wakefield publicou um artigo sugerindo uma relação entre a administração da vacina tríplice viral e o surgimento de autismo. Pouco tempo depois o artigo foi retratado por fraude e Wakefield recebeu o prêmio Golden Duck pela prática de pseudociência de forma ridícula, perigosa, irracional ou irresponsável.

Referências sugeridas:

Gilles-Gaston Granger. A ciência e as ciências. UNESP.
Michael Hanlon. Was Einstein wrong? Dailymail. September, 2011.
Salvador Nogueira. Neutrinos mais rápidos que a luz? Sociedade Brasileira de Física. Setembro, 2011.
Eugenie S. Reich. Flaws found in faster-than-light neutrino measurement. Nature News. February, 2012.
Roberto Neves. Teoria do Big Bang, uma teoria muito mais filosófica do que científica. Blog Gilghamesh. Janeiro, 2013.
Abbie Smith. “Nature” awards quack hunters with John Maddox prizes. ERV. November, 2012.
Fiona Godlee and Jane Smith. Wakefield’s article linking MMR vaccine and autism was fraudulent. BMJ, 342: c7452, 2011.doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.c7452

.Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Alison Felipe Alencar Chaves (2013). Devagar com o ceticismo https://curiosorealista.wordpress.com

Um pensamento sobre “Devagar com o ceticismo

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