Compreensão pública da ciência

A psicologia do medo nos cinemas

Já comentei aqui sobre uma suposta tendência dos heróis de quadrinhos e seriados apresentarem características cada vez mais humanas e discuti algumas implicações disso para a assimilação da cultura científica (Cf. Os heróis da infância). Parece-me que o cinema tem assumido uma postura semelhante no que diz respeito aos títulos do gênero terror/suspense. Bem, o terror sempre teve muito do elemento sobre natural. Por longos anos isso mexeu com o imaginário do público. Cada filme apresentava um personagem mais assustador que outro. Contudo, como ensinou Alfred Hitchcock, por mais horripilante que o personagem pudesse ser o que realmente causa terror é a expectativa do monstro e não o monstro em si.

Uma sábia amiga me despertou o interesse no assunto, que à primeira vista nada tem a ver com ciência. Mas apenas à primeira vista. Parece que os filmes de terror de hoje não são tão assustadores quanto os de antes. O público que tinha alguma identificação com os sentimentos passados pelo velho gênero parece ter migrado para o suspense do tipo psicológico. Um filme no qual um personagem horripilante se anuncia, mas não aparece até as cenas finais do espetáculo não cria grandes fãs. O que mudou?

Cineastas de todo o mundo têm explorado os efeitos especiais e animação gráfica de tal maneira que nada mais nos surpreende. As salas de exibição com tecnologia 3D não são assim tão revolucionárias. Contribuem para alguns sustos e emoções, mas não sem causar alguma dor de cabeça pós-exibição em muitos expectadores. Mesmo séries que tratam do sobrenatural não geram maior público. Filmes como “O chamado” ou “O grito” nada têm de aterrorizantes, são clichês. Por outro lado, quando o filme inicia as cenas iniciais com os dizeres “baseado em um caso real” o público fica interessado em saber o conteúdo e fazer conjeturas sobre as chances de ter acontecido. É o caso dos filmes “O exorcismo de Emily Rose” e “Requiem” cujas estórias são baseadas no caso de Anneliese Michel, uma jovem religiosa que sofria de epilepsia e supostamente sofreu possessão demoníaca. A trama começa com a morte de “Emily” e a acusação de homicídio negligente do padre que realizara o ritual de exorcismo em Emily após aconselha-la a interromper o uso dos medicamentos prescritos pelo psiquiatra por alegar que interferiam no ritual.

A trama do filme é fantasticamente elaborada para apresentar um confronto entre duas cosmovisões diametralmente diferentes. De um lado autoridades religiosas e até uma pesquisadora declaradamente religiosa defendem o ponto de vista de que a garota pode ter sido possuída e assim o padre deveria ser inocentado. De outro lado, o advogado da família que acusa o padre de homicídio negligente pela razão já mencionada. O filme tem poucas cenas que poderiam ser consideradas de terror, mas muito de suspense no ar. A disputa entre as duas leituras do acontecimento é sem dúvida intrigante e devo mencionar que vale cada minuto dispensado de nossa atenção.

Penso mesmo que o velho gênero de terror esteja fadado à extinção. Embora usando a licença para o sobrenatural, os filmes tendem a ter menos do conteúdo extraordinário e mais de conteúdo que se encaixe no escopo da realidade, tal como explorar transtornos da mente. Minha proposição certamente admite exceções e acredito que muitos gostem dos clássicos exibidos no Cine Trash. A ciência aparentemente tem moldado nosso gosto pelo cinema. Sempre iremos ao cinema esperando ver algo fantástico, mas, graças à ciência, nossa crítica tem ficado sofisticadamente mais apurada.

4 pensamentos sobre “A psicologia do medo nos cinemas

  1. Muito bom o texto, ele abre nossos olhos pras mudanças que a ciência faz no entretenimento e que essas não acontecem só quando o gênero é ficção científica.

  2. incrível é notar como somos influenciados pela essa cultura de filmes, antes do caso de Emily Rose praticamente não existia padres que exerciam exorcismos, logo depois do filme, que foi um sucesso, todos começaram a acreditar que isso seria verdadeiro e o numero de exorcistas subiu mais de 500%, interessante é notar que o suposto “capeta”,”diabo” só começe a invadir corpos daqueles que são cristão ou até melhor dizendo, do povo ocidental, pq nunca vi chines, índio com nenhum caso sobre isto, p/ finalizar, o filme ainda tenta passar que o padre estaria correto, mas na realidade ele foi condenado juntamente c/ os pais, por negligência, algo que o filme não mostrou…emfim, não podemos ter todas as respostas do mundo, mas como alguma coisa não foi respondida ou descoberta a resposta não deve-se ao crédito de ser algo sobrenatural.

    • Uma análise perspicaz Adriano. Confesso que não tinha conhecimento do aumento tão pronunciado de praticantes de exorcismo após a exibição do referido filme nos cinemas, mas me interessa que as diversas formas de mídia gerem tendencias de comportamento, notadamente que a igreja esteja sujeita a isto.

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