Música/Política

Love, love, love

Declaradamente à amiga beatlemaníaca Cláudia Pessi, Dete.

Subliminarmente a outras tantas pessoas especiais.

O Surrealismo é destrutivo, mas ele destrói somente o que acha que limita a nossa visão.”

Salvador Dali

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo…”

Caetano Veloso

I – o Rock

Durante muitos anos guardamos essa informação, mas acho que agora não há mais porque não lhes contar como as coisas realmente aconteceram naqueles dias. Eu tinha 17 anos e apenas uma coisa na cabeça: Rock! Gostava dos Stones, do The Who, do Jimi e da Janis, me entorpecia com o psicodelismo do Syd Barret e seus amigos virtuosos, mas nada se comparava à minha relação com os Beatles. As suas músicas, feitas como que por encomenda, pareciam na verdade minhas. E como tantos garotos que sonham um dia ir ao show da sua banda predileta, o meu sonho era ir a um show dos Beatles.

O sonho era tão grande quanto impossível para um garoto da Rússia socialista. Se já era muito difícil conseguir os discos e os pôsteres que eu colecionava como relíquias, assistir um show não fazia parte da realidade, não podia viajar tanto pela falta de dinheiro quanto por meu pai, que era membro do Partido.

Eu e meu melhor amigo, Yakov, conversávamos sobre os riffs, as letras e os detalhes das músicas. Fantasiamos muitas vezes estar em shows ou em um pub conversando com nossos ídolos. Eu gostava mais do Jhon, ele mais do Paul. O efeito da vodka roubada do meu pai era a maior proximidade possível com o rock imperialista inglês.

II – O refúgio

Com a porta entreaberta resolvemos entrar. Luz mediana, fumaça de cigarrilhas francesas e Psicko Killer, que nunca tínhamos ouvido, tocando na vitrola. Uma poltrona de costas para a porta com um homem sentado que nos disse: “gostam do som?”. Respondemos apenas que sim. Assim começou nossa amizade com Jhon. Um jornalista inglês que há pouco se mudara para Moscou. Há meses nossa curiosidade investigava aquele apartamento onde se ouvia rock. Já o tínhamos visto na rua e sabíamos que morava só. Um dia, por pouco não entramos enquanto ele estava fora. Foi uma amizade que mudou as nossas vidas e lá passamos as horas livres folheando almanaques de rock, ouvindo discos, conversando, fumando e bebendo. Ele nos contou que fora da juventude comunista em Liverpool e que estava em Moscou por qualquer coisa que não entendíamos bem.

III – Ela

O país ia bem. A indústria crescia e nas olimpíadas sempre a república soviética estava no topo. Dois anos haviam passado desde o dia em que conhecemos Jhon. Certa vez nos trouxe uma nova banda que afirmara ser ícone de um novo movimento. Hoje tenho que reconhecer que Smells like teen spirit tem importância histórica, mas meu contato com o grunje e com o Nirvana foi de ojeriza à primeira ouvida. Até hoje penso se não foi por que não era inglês, e sim rock americano, mesmo sendo de Seatle, o motivo de me causar tamanha antipatia. Ainda acho que não. Assim a conheci. Foi Natasha, uma jornalista amiga de Jhon que lhe apresentou o grunje. Ficava horas parado olhando para ela. Tão linda, mais velha e de personalidade forte. Não conseguia entender como gostava tanto de Pearl Jam. Nos apaixonamos.

IV – A idéia

Fazer um show dos Beatles na Praça Vermelha era o mais divertido devaneio nosso. Jhon sempre falava disto, mas daquela vez foi diferente. Disse-nos que faltavam alguns poucos detalhes e que precisaria da nossa ajuda. O bom amigo jornalista contou-nos segredos de Estado. Como fazer um show na Praça Vermelha sem que Stálin e o birô do Partido soubessem? Este sem dúvida consistiu em um dos mais ousados planos do século XX.

V – O Plano

Jhon começou a receber cartas um ano antes. As cartas eram assinadas pela sigla L.D.B e passavam informações sobre os detalhes do funcionamento do alto poder da República. No início pensara ser um trote, mas aos poucos foi verificando a coerência dos fatos relatados. Tempos depois, as correspondências orientaram Jhon a como entrar em contato. Sempre da mesma maneira: com uma carta não assinada, deixada dentro do Crime e Castigo, da terceira prateleira de baixo pra cima na sessão de literatura da Biblioteca Nacional.

As orientações indicavam que a noite do primeiro de maio como a data ideal. Durante o desfile todo o oficialato do governo iria beber vodka com gotas de sonífero. Os soldados, a imprensa oficial e todos os demais altos servidores receberiam dias antes instruções para tarefas externas. O palco seria o mesmo usado por Stálin e pelo Comitê Central para assistir ao desfile militar. O controle de som seria instalado horas antes, do lado oeste da praça, a cerca de 10 metros da tumba de Lênin. Mas como fazer um show sem os artistas e sem público? A entrada e a saída dos artistas do país eram de responsabilidade do nosso misterioso interlocutor, enquanto que Jhon, eu, Yakov e Natasha seriamos os responsáveis pelo publico.

VI – O dia do trabalhador

Começamos uma semana antes em conversas de um a um ou de, no máximo, dois a dois. Pedimos para que as pessoas, os amigos da universidade e vizinhos jovens, guardassem sigilo para com os seus pais e que estivessem na Praça exatamente às 19 horas para nos encontrar novamente. E que assim o fizessem com mais um ou dois amigos. No dia pela manhã, não tínhamos certeza alguma de que algo aconteceria. Além das cartas, nada tínhamos. O desfile começou e terminou como o de todos os anos, e o medo e a ansiedade estavam no rosto da Natasha, do Jhon, do Yakov e imagino que também no meu. Três horas após o desfile as ruas começaram a ficar esvaziadas, bem mais do que de costume. A praça já estava escura e trinta minutos antes da hora marcada as pessoas começaram a chegar. Os amigos dos amigos queriam enfim saber o que seus amigos queriam lhes mostrar de tão secreto e especial. Às 19 horas uma multidão, maior que a do desfile já tomava conta da Praça.

Ouvimos vozes, de um som que vinha de todos os lados. Foram segundos de câmera lenta de um coro de puberdade, juvenil, que declamava as mais doces palavras ouvidas nos quatro cantos da terra: “Love, Love, Love…”. Um singelo violino acompanhava ao fundo e a junção dos sons, a música, fazia com que as pessoas olhassem umas para as outras e para si mesmas. Sem nada a argüir, deram-se os braços por cima dos ombros e olharam aqueles quatro rapazes no lugar onde horas antes estava o camarada Stálin. All i need is Love e sua comoção foram substituídas pelas batidas de Help. Os pés ciscavam o chão gelado e correntes humanas se formaram para Twist and Shout. Como todo fã que vai pela primeira vez ao show da sua banda predileta sabe, é necessário algum tempo, de algumas músicas pelo menos, até que realmente se acredite no que está acontecendo. Imaginem como foi conosco.

VI – Bom trabalho, Camaradas!

Foi o mais longo show da história dos Beatles. A multidão confortavelmente entorpecida dançou, riu, chorou e se alegrou por mais de três horas. Quase no fim do show, fomos bem para trás, numa parte elevada para observar com orgulho pedante aquilo que havíamos ajudado a construir. No mesmo momento dos primeiros acordes de In my life, senti um toque leve no meu ombro esquerdo e ouvimos uma voz dizer: “Bom trabalho, Camaradas!”. Nos viramos e vimos um senhor, com um sobretudo de couro preto, gorro para o frio e óculos pequenos de lentes redondas, como os clássicos óculos de Jhon Lennon. Ele estendeu a mão e se apresentou a nós: “Lev Davidovicht Bronstein, enfim tenho o prazer de conhecê-los pessoalmente”.

No dia seguinte, os mais de quinhentos mil jovens que fizeram o maior e mais longo show da história do rock sorriam e guardaram aqueles momentos dento de si. Stálin só soube do fato em seu leito de morte. Trotsky tinha certeza de que a batalha por aquela geração adulta soviética estava praticamente perdida e que, portanto, era necessário ganhar a juventude que anos mais tarde iria derrubar uma vil burocracia. Num encontro com Jhon, George, Paul e Ringo, Lennon sugeriu o show, que também era um sonho seu. Poucos sabem, mas devo confessar que o próprio Lennon me contou que o seu famoso “óculos Jhon Lennon” fora um presente dado por Lev Davidovicht Bronstein. Alguns trotkistas também se assustarão ao saber que a célebre frase atribuída à Leon, de que “ a Revolução traria à todos o direito não somente ao pão, mas também à poesia”, fora cunhada em comum com Lennon, após horas de conversa informal, onde falaram, dentre outras tantas coisas, de futebol e poesia. Até hoje acredito e tenho evidências, mas lhes contarei em outra oportunidade, que o assassinato de Lennon em Nova Iorque tenha sido executado a mando de agentes stalinistas. Eu passava em frente ao prédio na hora exata dos disparos e vi coisas que o mundo precisa saber…

A história ocidental e soviética até hoje negam estes fatos. A lógica formal do tempo foi e é pequena para os prodígios daqueles dias. Mas o rock é atemporal e pequenas revoluções acontecem sempre quando uma música é tão especial que bastam alguns acordes e riffs para que o mundo mude e seja bem melhor do que era antes.

Foi assim que tudo aconteceu. Minha vida se desenrolou como em conta-gotas e todos os dias bebo alguns pingos das lembranças daquele primeiro de maio. E assim será, sempre.

P.S.: Hoje eu curto Pearl Jam.

Por Marco Antônio P. Costa

Licença Creative Commons
Este texto de Marco Antônio P. Costa, está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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