Compreensão pública da ciência

Adequação da crítica

Há muitas críticas que podem ser feitas aos cientistas, algumas legítimas outras nem tanto. No que diz respeito à crítica legítima, os próprios cientistas não fazem qualquer reserva em julgar as falhas de seus pares. A cultura crítica é bastante forte na ciência, de modo que seria impossível sair do lugar sem essa prática. Um exemplo de crítica dessa natureza pode ser visto no texto “Quando a criatividade falha” publicado aqui. Há no entanto, outras formas de crítica que não dizem respeito à correção experimental ou coisa do tipo. Por exemplo, aquelas que fiz ao escrever “As vestes da autoridade“, “Política de produtividade e livros” ou “A quem cabe o dever de divulgar a ciência“. Rapidamente, os textos abordam questões como a falta de moderação em pronunciamentos públicos, um pronunciado desinteresse por livros em favor dos artigos e a falta de valorização da compreensão pública da ciência por parte dos nossos cientistas.

Sempre que escrevo algo com conteúdo mais crítico tenho a preocupação de não deixar lacunas que possam autorizar o leitor a extrair conclusões gratuitas ou gerar alguma distorção da mensagem original. Esta não parece ser uma preocupação por parte de alguns críticos não especializados da ciência. Há muitos exemplos de críticas inadequadas à ciência seja propositadamente ou por falta de um julgamento mais rigoroso antes de se pronunciar. Uma crítica que me incomoda bastante é aquela com relação ao uso de animais para fins experimentais.

Uma das críticas correntes, especialmente em redes sociais, acusa a figura do cientista de ser uma criatura destituída de sentimentos, desinteressado de quaisquer assuntos da vida cotidiana e assassino a sangue frio. Uma tirinha mostra um cenário composto por um laboratório com vários animais enjaulados e um cientista efetuando um experimento. O cientista, que veste jaleco e tem um ar arrogante, é desafiado por um chimpanzé engaiolado – Ei Einstein, que tal buscar a cura da insensibilidade para com outras espécies?

Duvido que qualquer pesquisador sinta prazer enquanto sacrifica um animal após seus experimentos in vivo. Em realidade, é mais facilmente observável a face de sofrimento por ter que fazê-lo. Cientistas quem trabalham com cobaias geralmente têm uma empatia com os animais maior que muita gente declaradamente contrária à experimentação com animais de laboratório. Se desejar presenciar algumas expressões de crítica realmente bizarras dê uma volta na Avenida Paulista (São Paulo-SP) ao cair da noite. Nas calçadas, disputam a atenção dos caminhantes os mais diversificados grupos. De integrantes de seitas estranhas que pregam a volta de algum Messias a ativistas políticos e de movimentos contra o uso de animais de laboratório.

Em certa ocasião me deparei com um grupo que exibia cenas de sacrifício de animais em laboratório. O show de horrores contava com gritos, sangue e expressões de sofrimento em slow motion. É importante notar que as cenas eram aparentemente de alguma gravação perdida de pós-guerra. Afinal de contas quem conhece as rotinas dos laboratórios sabe que a situação não é nem de longe como a que o grupo quis fazer acreditar.

É preciso que compreendamos, não se faz pesquisa com animais em laboratório por comodismo ou satisfação, mas por falta de qualquer outro meio. Alguém poderia questionar: “A falta de alternativas justifica a resignação por parte dos cientistas?” ao que devo responder, não! Mas minha resposta não deve agradar muitos, dado que meu “não” tem muitos desdobramentos. 1. Não, nada justifica a resignação; 2. Não, não acredito que haja resignação por parte dos cientistas, o que há é falta de investimentos para avançarmos no uso de outras tecnologias; 3. Não, não estamos de braços cruzados esperando a alternativa cair do céu, todos os dias damos duro para chegar a um desenho experimental o mais independente possível do uso de animais. Nos grandes centros de pesquisa há cotas para utilização de cobaias por pesquisador e um caminho burocrático que qualquer pesquisador certamente prefere evitar, se puder. Assim, os testes in vitro são geralmente desejáveis, o problema é que não respondem muitas perguntas importantes, especialmente quanto aos benefícios a longo prazo e toxicidade de novas drogas. 4. Não, não espere que cientistas endossem campanhas contra o uso de animais de laboratório.

A maneira irresponsável como muitos grupos propagam que a ciência lida com cobaias acaba por gerar um discurso de ódio. Há casos de laboratórios incendiados ou depredados por ativistas empolgados. Então, façamos a adequação da crítica. Não dirija sua indignação contra o trabalho de cientistas ou os acuse de insensibilidade. Lembre-se que quem tirou o Homo sapiens de seu pedestal e nos ensinou que não somos mais importantes que uma bactéria ou uma ameba foram os cientistas.

Referências sugeridas

How has animal research contributed? Foundation for Biomedical Research.
Yuri Grecco. Pesquisas com animais – quebrando mitos. Canal Eu Ateu no You tube. Mar 9, 2012.
Paulo Nascimento. Testes em animais – um adendo. Canal Pirulla25 no You tube. Mar 11, 2012.
Yuri Grecco. Luisa Mell e os Beagles (Instituto Royal). Canal Eu Ateu no You tube. Oct 29, 2013.
Helena Nader. Presidente da SBPC diz que destruição do Instituto Royal atrasa o desenvolvimento do país. Royal Apoio. Oct 28, 2013.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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