Cadernos de microbiologia

Sobre fagos e ratos

Conforme ensina o provérbio português, “os ratos são os primeiros a abandonar o navio.” Não se trata, é claro, de um navio literal, mas de uma alegoria forjada para exprimir a ideia de que estamos juntos quando convém. Se o contexto não gera mais benefícios para o aproveitador, este rapidamente procura outros refúgios abandonando quem já lhe ofereceu benefícios.

Esta é uma situação que ocorre na relação entre vírus e células de qualquer tipo. O vírus, como é de conhecimento público, não é uma entidade celular. Não tem uma maquinaria própria que lhe permita continuar a existir em outras gerações (i.e., replicar e fazer auto-montagem). Por isso, os vírus precisam inserir seu material genético (DNA/RNA) em uma célula.

Deve haver um equilíbrio tal que o vírus possa ser capaz de infectar para se replicar, mas que seu poder de causar doença (virulência) permita uma longa vida ao hospedeiro infectado. Este equilíbrio é importante para que o vírus continue a existir, pois se sua virulência for exacerbada o hospedeiro morrerá antes que haja tempo para infectar outros. Isto não seria bom para o hospedeiro, mas seria ainda pior da perspectiva do vírus, que não perpetuaria seu material genético.

Quando um vírus como o HIV (Human Immunodeficiency Virus) infecta um hospedeiro, os sintomas demoram a aparecer. Isto não se deve ao tempo necessário para gerar anticorpos (imunoglobulinas) contra o vírus, mas ao que chamamos ciclo lisogênico do vírus. Quando o vírus infecta com sucesso e integra seu material genético ao da célula, ele permite que a célula continue a executar suas atividades normais, o que inclui se replicar. O preço pago pela concessão é replicar o material genético do vírus junto. Isto permite que as instruções para montar novos vírus sejam passadas para a próxima geração de células infectadas. Assim, o ciclo lisogênico é benéfico para o vírus, que não extermina a célula e continua a existir.

Como nem tudo são flores, há casos em que o hospedeiro não se encontra numa situação muito boa de saúde e suas células correm perigo. Se por algum motivo a célula infectada corre perigo de ser eliminada, o vírus prontamente passa a comandar as funções celulares enviando ordens para a montagem de novos vírus. Os vírus recém-montados acumulam no citoplasma da célula até que ocorre a ruptura da membrana celular liberando os vírus prontos para infectar novas células. É quando aparecem os sintomas de uma doença viral que agora está no ciclo lítico.

O ciclo lítico é o principal responsável pelos danos celulares causados pelos vírus. O ensinamento popular parece mesmo se aplicar à relação entre vírus e hospedeiro. Quando há sinais de que a célula vai afundar, os vírus entram no ciclo lítico e erguem a bandeira de “abandonar o navio!

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

2 pensamentos sobre “Sobre fagos e ratos

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