Cadernos de microbiologia

Fungos e o apocalipse zumbi entre insetos

Em meio a literatura de ficção é comum encontrarmos estórias sobre algum microrganismo que se dissemina rapidamente causando epidemias apocalípticas e eventualmente alguns zumbis. Os autores deste tipo de ficção frequentemente buscam algum apoio na literatura científica a fim de encaixar a ideia num contexto que leve a audiência a pensar nas possibilidades do evento ocorrer. Os vírus são os agentes preferenciais para este tipo de romance dado sua facilidade de disseminação e rápida instauração do ‘apocalipse zumbi’.

Capa do Livro 1 de Ian Duncan. Trata-se de uma trilogia.

Ian Duncan é um desses escritores que chama atenção pelo olhar pouco convencional sobre o assunto. Talvez cansado de ler sobre vírus, Ian teve a ideia de lidar com um outro microrganismo, um fungo. No livro, Ian retrata o uso de um fungo chamado Cordyceps como pesticida devido à habilidade que possui de eliminar insetos (i.e., o fungo é entomopatogênico). Esse tipo de prática é bem comum na biotecnologia. O fungo não causa doença nas plantas mas afeta dramaticamente os insetos, o que resultaria na eliminação de pragas e uma agricultura mais produtiva. Com o passar do tempo, no romance, o fungo adquire a capacidade de infectar outros tipos de hospedeiro até que o Homo sapiens entra na cadeia de infecção. Eis que o apocalipse zumbi se instaura.

Com a devida observação de que o apocalipse zumbi não irá acontecer, podemos falar um pouco mais sobre o fungo e entender as razões que compeliram Ian a escrever um livro protagonizado pelo microrganismo. Cordyceps é um gênero do qual fazem parte cerca de 400 espécies conhecidas de fungos. Todas elas são endoparasitárias (i.e., se desenvolvem dentro do corpo do hospedeiro). São ainda entomoparasitas, o que quer dizer que infectam insetos e algumas espécies infectam outros fungos.

Quando o Cordyceps (na forma de micélio/agrupamento de hifas) infecta o hospedeiro, suas células invadem e substituem os tecidos do hospedeiro pelo que chamamos corpos de frutificação (estruturas com finalidade de armazenar esporos reprodutivos do fungo). O corpo de frutificação se desenvolve até quebrar em pedaços liberando os esporos reprodutivos. Como esses esporos são cápsulas extremamente pequenas e leves eles podem facilmente se propagar pelo ar atingindo longas distâncias. Esse quadro de eventos gera o efeito observado na imagem que ilustra este post. Trata-se de um inseto (evidentemente morto) repleto de corpos de frutificação. A imagem seria perturbadora se projetássemos para hospedeiros mamíferos, o que foi feito com maestria no jogo em terceira pessoa The Last of Us lançado em 2013 para o console PS3.

Formiga infectada por fungo do gênero Cordyceps. Na cabeça observamos um corpo de frutificação do fungo.

Alguns fungos do gênero Cordyceps e outros do gênero Ophiocordyceps são capazes mesmo de afetar o comportamento do hospedeiro (insetos) fazendo-o buscar por condições adequadas para a propagação do fungo. Formigas infectadas são compelidas a escalar plantas ou árvores e fixar-se no ponto mais alto. Ali morrem e o fungo gradualmente substitui seus tecidos para dar vida aos corpos de frutificação. O fungo agora encontra-se na mais conveniente das posições para disseminar seus esporos, levando em consideração a umidade, temperatura e localização espacial.

Com um pouco de criatividade, estas características fazem do Cordyceps um excelente protagonista para thrillers de epidemias zumbis. Controle de comportamento e crescimento de vegetações pelo corpo são realmente assustadores se observados em um mamífero. Ian só precisou acrescentar um elemento evolutivo que permitisse ao fungo transcender a barreira entre espécies. Impossível! Alguns dirão. Mas, algo similar, de fato, ocorreu em nossa história de epidemias, como o caso da gripe suína ou a gripe aviária, que adquiriram a capacidade de infectar o Homo sapiens.

Referências

BBC Nature. Cordyceps. 2013;
Ian Duncan. Cordyceps. Kindle, 2010.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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