Compreensão pública da ciência/Filosofia

Prova sensível?

Outro dia estava a conversar com um amigo sobre experiências de quase morte. Assunto bastante antigo e que ainda consegue encontrar espaço para um tratamento pouco crítico na mídia sensacionalista. Adianto que neste texto pretendo discutir um aspecto desta experiência que permite conceder o benefício da dúvida ao fenômeno e outro que é absolutamente estéril. Eben Alexander é mais um daqueles casos de profissional com uma carreira brilhante e com contribuições importantes a dar em seu campo, tal como Francis Collins, o ex-diretor do projeto genoma humano. O caso é que, há alguns anos, Eben passou por uma experiência de quase morte. O que aparentemente motivou o médico a escrever o livro intitulado “Proof of Heaven: A Neurosurgeon’s Journey into the Afterlife.”

Dado que Susan Blackmore respondeu satisfatoriamente as questões relacionadas aos sentidos, não pretendo me estender em explicações de como as alterações de estado mental podem comprometer o juízo. Sem dúvida, quase morrer é uma experiência impactante na vida de um indivíduo. Após uma tal experiência, alguns indivíduos abrem mão completamente de usar o juízo correto e passam a privilegiar experiências percebidas sem nenhuma ponderação. Racionalizar deixa de ser mandatório e apenas o mundo sensível passa a ser compreensível. Não penso que este seja o tipo de assunto que você deva jogar cara ou corôa para decidir se acredita ou não. Seria um processo de alimentar ilusões, de retroceder ao raciocínio primitivo. Tira-me do sério ouvir cientistas argumentando em favor desta visão.

Os sentidos são a única forma que animais destituídos de razão encontram para apreender o mundo. Nós, no entanto, podemos racionalizar o mundo. Desenvolvemos o raciocínio matemático e a lógica para isso. Embora não sejam definitivamente perfeições do juízo, são uma forma de apreender o mundo que, aliada à experiência, tem se mostrado eficaz. Quando renunciamos ao uso dessas ferramentas caímos no mundo puramente sensível e acreditamos no que nos impressiona e não no que parece ser correto. Assim nascem alguns mitos.

Longe de ser um pequeno deslize de raciocínio, isso é uma falha dos processos mentais e jamais deveríamos nos orgulhar dela tal como o faz Eben. Por mais perturbadora que uma experiência possa nos parecer, não devemos abdicar de usar sempre o juízo crítico. Após uma experiência de quase morte, seu raciocínio é posto à prova. Se você deseja desesperadamente acreditar que algumas fantasia são reais, provavelmente irá fazer como Eben e ignorar o juízo crítico. Irá acreditar no que experimentou porque foi pessoal e intenso, não porque passou pelo filtro da razão. Enquanto não passamos por essas experiências sabemos que renunciar à razão é a mais pura expressão da insanidade.

Razão posta à prova? provação não é um discurso religioso? A diferença é sutil, mas torna as duas provações diametralmente opostas. Quando se fala em provação de fé, faz-se referência a uma situação que o faz duvidar de sua crença. É uma provação dado que, pelos ditames religiosos, você deve resistir ao tentador desejo de questionar e manter-se firme em sua crença. Isto define bem a fé. Não desejo oferecer nenhum discurso conciliador entre religião e ciência, pois estes assuntos devem permanecer separados. Contudo, desejo usar uma expressão que foi usada pelo Biólogo Rafael Soares:

“Se sua fé precisa de embasamento científico é porque está fazendo alguma coisa errada.”

Por outro lado, quando falamos de uma provação para a razão não estamos falando de algo que a desafia, mas de algo que é contra as regras de seu uso. Questões que desafiam a razão são frequentemente temas de discussão para a filosofia dado que tornam-se estéreis no campo científico. Uma vez resolvidas na filosofia, passam a ser substrato para a ciência. Devemos conceder o benefício da dúvida sempre que possível, mas há casos em que simplesmente não se pode fazê-lo. Eben passou por uma experiência de quase morte e escreveu um livro intitulado “Prova do Céu.”  É, no mínimo, uma irresponsabilidade com o emprego do termo “prova”! É uma postura indefensável do ponto de vista lógico. Se ignorarmos a lógica, tudo passa a ser possível.

Diferentemente dos discursos que reivindicam ter encontrado a prova para existência do paraíso, vida pós-morte, existência de anjos, etc., os processos mentais envolvidos nas experiências de quase morte são um assunto legítimo. Estudar as alterações de consciência experienciadas pelo indivíduo é algo relevante. De fato, a consciência é alvo de debates até o momento insolúveis. O problema da separação entre corpo e consciência é um dos mais antigos no campo da filosofia. É difícil explicar a consciência em termos de um produto do cérebro, pois se comporta como uma propriedade emergente. A consciência é algo característico de sistemas complexos, i.e., que não pode ser explicado de maneira linear (com correlações).

Finalmente, em oposição a algumas expectativas, a experiência de quase morte não é um motor de conversão. O filósofo Daniel Dennett passou pela experiência e relatou não haver tantos mistérios na experiência pessoal. Isso mostra que minha asserção a respeito de nosso desejo de acreditar em certas coisas pode ser intensificado pela experiência. Por outro lado, se usamos a razão de modo honesto, não há experiência pessoal que possa comprometer o bom juízo. Devemos sempre lembrar que o mundo é sensível e inteligível. Se absolutizarmos a lógica apenas perceberemos o mundo inteligível, se renunciarmos a ela conheceremos somente o mundo sensível. Ambas as opções implicam em mau uso do juízo.

Referências sugeridas

Suzana Herculano-Houzel. Uma prova do céu: o neurocirurgião que acha que não precisa do seu córtex cerebral. A neurocientista de plantão, 2013.
Susan Blackmore. Experiencias fora do Corpo: Uma Investigação. Sao Paulo, Brasil, Editora Pensamento.
Eben Alexander III. Prova do céu: A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte, Editora Sextante/Gmt.
Daniel Dennet. Thank goodness! The third culture. 2006.
Barbara Hagerty. Decoding the mystery of near-death experiences. NPR, 2009.
John Searle. The Problem of Consciousness, Social Research, Vol. 60, No.1, Spring 1993.
John Searle. Consciousness. Ann. Rev. Neurosci. (2000) 23:557-78. DOI: 10.1146/annurev.neuro.23.1.557

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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