Compreensão pública da ciência/Filosofia

Propensão ao erro

Você entra numa repartição pública a fim de resolver um problema e é recebido por um funcionário mal humorado, pouco disposto e que lhe oferece um tratamento moroso e pouco resolutivo. Após alguns momentos de estresse, você deixa a repartição desejando jamais ter que voltar até ali. É possível que ao comentar com alguém sobre seu dia você reclame da situação. Se o assunto se estender é ainda possível que você deixe escapar o comentário “É por isso que não gosto de serviço público, todo atendimento público é ruim.”

Inadvertidamente, você acaba de ser vitimado pelo raciocínio indutivo, que pode ser resumido como “a inferência de uma lei geral a partir de um exemplo particular (Oxford).” “Mas sempre que precisei de algum serviço o atendimento foi ruim! Como meu raciocínio pode estar errado?” Ainda assim, o máximo que você poderia assumir é que, infortunadamente, aqueles serviços com os quais você teve contato dispunham de atendimentos ruins na ocasião. A conclusão “todo serviço público é ruim” é baseada na indução enumerativa. Ainda que você tenha um número elevado de observações da ocorrência do evento, o raciocínio continua indutivo. Você apenas usou a tentativa desesperada para salvar o indutivismo, o que chamamos de indutivismo probabilístico. Não há nada que nos autorize a pensar que porque um evento se deu de uma forma no passado ele se dará da mesma forma no futuro. O filósofo David Hume mostrou que esta visão é baseada apenas no costume ou hábito.

Nosso cérebro parece realmente ser bastante propenso a cometer erros desse e de vários outros tipos. Há uma boa razão pela qual concebemos tão bem os sistemas axiomáticos, eles são intuitivos. Por outro lado, temos uma dificuldade imensa em conceber conceitos como infinito em cálculos matemáticos ou alguns conceitos oriundos da mecânica quântica, eles são contra-intuitivos. Tome como exemplo a dualidade onda-partícula da luz. Como algo pode se comportar como onda e partícula ao mesmo tempo? definitivamente, não é um conceito muito intuitivo!

Dizer que algo é intuitivo não significa dizer que é um produto puro da intuição, mas tão somente que é mais facilmente concebível pelo intelecto. Assim, sistemas axiomáticos não são o que poderia se chamar de “somente uma intuição.” A correção não está petrificada numa forma ou outra de conceber a natureza (i.e., intuitiva ou contra-intuitivamente). Contudo, é possível que o erro esteja mais fortemente relacionado as intuições dado que, se um evento nos parece intuitivo, não gastamos muito de nosso tempo tentando entendê-lo de outro modo.

Referências sugeridas

Oxford English Dictionary Online. Acessado em março, 2013.
Karl Popper. Conhecimento objetivo. Itatiaia.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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