Compreensão pública da ciência

Axiomas, postulados e o reducionismo

Uma das etapas mais difíceis do processo criativo é decidir “por onde” e “como” começar. Isto se aplica ao escrever e iniciar discussões, por exemplo. Para iniciar uma discussão com alguém devemos assumir um certo número de proposições que estabeleçam um ponto de partida comum aos dois lados. É como dizer “assumindo que a chuva não irá interferir em nossos planos, o que faremos amanhã?” Em ciência fazemos uso de axiomas e postulados que nos oferecem o suporte para iniciar o raciocínio. Claramente, a aceitação de axiomas e postulados em ciência deve ser bem mais criteriosa que na vida cotidiana. Dado que constituem a base da construção do pensamento devem ser tão sólidos quanto possível.

Quando se faz uso de axiomas, postulados e definições que tornem os termos da discussão objetivos a primeira crítica é a de que estamos a praticar reducionismos. Suspeito que questões, tais como o problema da consciência e da definição de vida, estejam sujeitos à condição de insolúveis pela ausência de aceitação de axiomas, postulados e definições que os tornem objetivos. Todas as tentativas de tornar os termos objetivos tem sido rejeitadas com basa em nada além da acusação de reducionismo, e isso nem sempre se justifica.

Aqui não abordarei a questão das definições visto que já o fiz em outra ocasião (ver “A estrutura de um conceito). Qual a diferença então entre axioma e postulado? De modo geral, dizemos que axiomas são algumas “verdades” auto-evidentes, altamente intuitivas e que, por tanto, não precisam de demonstração prévia. É o caso dos axiomas de Euclides, um exemplo “Se quantias iguais forem subtraídas das mesmas quantias, os restos serão iguais.” Assim, subtraindo-se dois de cinco restará três, estejamos falando de planetas ou de átomos. Fazemos uso de axiomas o tempo inteiro, ou você já viu alguém preocupado em primeiro demonstrar se proposição mencionada a cima é verdadeira antes de aceitá-la?

Postulados são do mesmo modo “verdades” aceitas sem demonstração prévia. Diferente dos axiomas, os postulados não são auto-evidentes, embora pareçam intuitivos. Um dos postulados de Robert Koch assume que “O agente causador da doença em questão não pode ser encontrado em indivíduos saudáveis.” Não há nada de evidente nesta assunção que não poderia ser de outra forma. Tomados conjuntamente, os postulados de Koch são bem úteis na prática de microbiologia e parasitologia para obtermos microrganismos virulentos a partir de cepas atenuadas, por exemplo. Por outro lado, podem ser demonstrativamente falsos se tomados separadamente. Tomemos como exemplo o fungo dimórfico Candida albicans cuja habilidade de mudar a morfologia é determinante para causar doença. É um microrganismo ubíquo, sendo encontrado tanto em indivíduos saudáveis quanto em indivíduos doentes. Possivelmente, há mais fatores relacionados ao hospedeiro que ao fungo no processo de estabelecimento da candidíase (desconsiderando cepas multi-resistentes a drogas).

Suponha que desejamos obter múltiplas cópias de um fragmento de RNA mensageiro (mRNA) específico numa mistura de vários tipos de RNA. Lembre-se que apenas o mRNA com uma sequência específica nos interessa. Há algumas formas de realizar esta tarefa, mas vamos nos ater a uma em especial que faz uso do seguinte axioma de Euclides, “Duas coisas iguais a uma terceira são idênticas entre si.” Dito isto, podemos construir um fragmento marcado de DNA complementar (cDNA) ao mRNA de interesse, que chamaremos de sonda, e colocá-la numa mistura de RNA que deve conter nosso fragmento de interesse. A sonda de cDNA irá hibridizar com o mRNA ao qual é complementar e poderemos observar se nossa mistura contem o mRNA ao qual a sequência de nossa sonda é complementar. Assim poderemos dizer, duas ou mais coisas iguais (neste caso, complementares) a uma terceira são idênticas entre si. A sonda é um espelho que revela a igualdade dos fragmentos de mRNA obtidos.

Na prática científica, bem como na vida cotidiana, a aplicação de axiomas e postulados é mais do que útil; é necessária. Esclarecidas as razões pelas quais usamos pressupostos para iniciar discussões, passemos à questão do reducionismo. Boa parte das acusações do tipo “mas você está sendo reducionista!” não constituem sequer um argumento. São, em realidade, apenas uma forma de enquadrá-lo num grupo onde ninguém quer estar, o que frequentemente leva ao abandono do raciocínio inicial. Dizer que uma proposição é reducionista significa dizer que a proposição representa mal um fenômeno complexo por simplificá-lo demasiado. Devemos ter em mente que o raciocínio analítico funciona bem para o estudo de eventos pontuais. Nunca foi objetivo de qualquer estudo científico responder todas as perguntas numa só empreitada. Verdadeiramente, estamos sempre interessados em responder algo sobre um fenômeno pontual, uma parte do todo.

Alguns acreditam ser impossível explicar de maneira objetiva fenômenos complexos e nota-se que fazem alguma confusão com o que chamamos de propriedades emergentes, estas podem e são frequentemente representadas de maneira matemática e, portanto, objetiva. Simplificar não significa reduzir tanto que as características do fenômeno sejam perdidas, mas antes representar de maneira inteligível. Como registrou Sir Karl Popperos enunciados mais simples devem ser mais altamente apreciados do que os menos simples, porque eles nos dizem mais, porque encerram um conteúdo empírico maior e porque são suscetíveis de testes mais rigorosos.” Tenha sempre em mente, antes de iniciar uma discussão, quais as implicações de se assumir determinadas proposições. Esta atitude pode evitar muitas confusões.

Referências sugeridas

Karl R. Popper. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1959, p.149-155.
Euclides. Elements. Book I.
Alfred S. Evans. Causation and Disease: The Henle-Koch Postulates Revisited. Yale J Biol Med. 1976 May; 49(2): 175–195. PMCID: PMC2595276
Timothy J. J. Inglis. Principia ætiologica: taking causality beyond Koch’s postulates. J Med Microbiol. November 2007, vol. 56, n. 11, 1419-1422. doi: 10.1099/jmm.0.47179-0

Licença Creative Commons

Esta obra de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

3 pensamentos sobre “Axiomas, postulados e o reducionismo

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