Compreensão pública da ciência/Filosofia

Função/propósito ou auto-engano

Conceituar objetos ou entidades não é um problema trivial dado não estarmos habituados a fazer perguntas sobre conceitos corriqueiros. O que inclui o próprio conceito de conceito (Cf. A estrutura de um conceito). Não pretendo me estender sobre este ponto em especial. Desejo apenas chamar a atenção aos riscos de se construir conceitos baseados numa suposta função da entidade que se pretende conceituar. Fundamentalmente, porque quando atribuímos um nome tendo por base a função da entidade, ou tropeçamos acidentalmente em algo que aparenta ser uma função ou estamos estudando deliberadamente a participação da entidade num dado processo.

Assim, uma entidade que é nomeada pela função com a qual foi relacionada por ocasião de sua descoberta, frequentemente é apontada participar de outros processos e desempenhar outras funções. É o caso de uma proteína chamada Glicogênio Sintase Kinase (GSK), a qual foi relacionada ao metabolismo do glicogênio. Alguns anos depois de sua identificação, descobriu-se que ela participava de diversas outras vias de sinalização como proliferação celular, desenvolvimento embrionário, oncogênese, etc. Já era tarde para renomeá-la. Este é um exemplo da bioquímica, mas encontramos equivalentes em muitos campos.

A questão então é saber se há uma função bona fide para uma entidade da natureza. Quando olhamos para um carro e perguntamos sua função, a pergunta parece bastante coerente. A função é transportar pessoas com certa agilidade por grandes distâncias. É legítimo perguntar “para que serve?” ou “qual a função?” dado que sabemos ter sido projetado por um ser dotado de inteligência e vontade. Por outro lado, perguntas do tipo “qual o sentido da vida?” ou “qual o função do Sol?” não tem o mesmo valor de legitimidade. No primeiro caso porque a pergunta evoca um problema psicológico, não lógico, e em ambos os casos porque não há propósito declarado ou oculto posto que não há projeto. A função do Sol não é proporcionar condições para a vida na terra, isso não passa de um conveniente acidente natural. Na realidade não há uma função definida para o Sol ou um propósito real para a vida.

Mas porque sempre pensamos que deve haver tal propósito embutido nas entidades que conhecemos de algum modo? Muitas razões podem ser aventadas, mas ficaremos com uma que é particularmente instrutiva e justifica diversos problemas conceituais. A metafísica aristotélica.

Aristóteles escreveu dois livros (Física e Metafísica) falando sobre a importância de se conhecer a ligação causal entre as coisas que nos rodeiam. Aristóteles se diferenciou de seus antecessores por não negligenciar tais aspectos causais. O filósofo dizia que aquilo que um objeto “é,” num dado momento, chamamos “ato” enquanto as possibilidades contidas nele, mas que ainda não vieram a “ser”, chamamos “potência.” É como dizer que um limão pode tornar-se uma limonada. Enquanto limão é ato, sendo ato, tem o potencial para tornar-se uma limonada. Conforme Aristóteles, a mudança da potência ao ato (i.e., quando a limonada passa a ser o estado atual) implica movimento que, por sua vez, evoca um influxo causal.

Aristóteles definiu então que todas as coisas que são (i.e., aquilo que é “ato”) estão em incessável movimento e devem ser produto de quatro causas que concorrem: uma material (do que é feito o objeto), uma formal (a forma como o percebemos), uma eficiente (aquela que é responsável pelo movimento da potencia ao ato) e uma final (ou o propósito). Se todas as coisas que “são” obedecem à metafísica aristotélica, então devem reunir as quatro causas mencionadas.

O problema é que, de fato, não observamos as quatro causas concorrendo para as coisas que são, exceto para entidades projetadas. Minhas evidências são um tanto técnicas, mas perfeitamente compreensíveis. Há uma proteína que compõe o capsídio do vírus da Hepatite C chamada “HCV124.” Sempre ensinamos para alunos de graduação que existe uma relação clara entre estrutura e função inerente às proteínas. Bem, esta proteína mostra que erramos de muitas formas em nossas classificações.

Como já vimos, apontar uma função para uma proteína significa oferecer uma reposta à pergunta “para que serve?” Vimos também que, a menos que estejamos falando de algo projetado, a pergunta não faz sentido. Uma proteína terá tantas funções quanto lhe for possível participar de processos distintos. No caso da HCV124, sugeriu-se que era uma proteína com função estrutural, mas já se sabe que está relacionada com diversos outros processos. Além do mais, a proteína não tem uma estrutura definida. Ela é o que chamamos de proteína intrinsecamente desestruturada. Em termos práticos, significa que você não pode proclamar “a estrutura da proteína HCV124 é X.” Ela simplesmente muda a estrutura conforme variações são introduzidas no meio.

Conforme apontei, as proposições causais de Aristóteles deveriam ser universais. Mas no nível molecular elas se mostram falsas. Proteínas intrinsecamente desestruturadas tem uma causa material, a saber os aminoácidos que as compõem ou mesmo os átomos que compõem seus aminoácidos. Quanto a causa formal, já vimos que não haverá uma estrutura inerente à HCV124 posto que é de sua natureza não ter forma definida, diferente de uma hemoglobina que tem suas cadeias ligadas e uma forma estrutural bem estabelecida. Buscando uma causa eficiente chagaremos até a maquinaria de síntese da proteína. Satisfeita esta condição, passamos à seguinte.

Qual a causa final de uma proteína, seja ela intrinsecamente desestruturada ou não? Há um propósito deliberado na síntese de uma proteína? Já vimos mais de uma vez que uma mesma proteína irá participar de tantas funções quanto lhe for possível. Acidentalmente, organismos complexos tem se desenvolvido de modo a reaproveitar o que já tem para funções diversas. A evolução não privilegia extravagâncias de recursos. Um belo exemplo nos é dado num trabalho do doutor Piatigorsky, onde apresenta diversas proteínas com funções até então definidas, mas que quando em outro ambiente possuem outras funções. Por exemplo, proteínas de choque térmico, conhecidas por sua capacidade de ajudar no dobramento de outras proteínas para que não desnaturem ou assumam uma estrutura disfuncional, podem ser secretadas e compor o cristalino dos olhos em vertebrados. Qual das duas é a função? Há uma função real ou ela é encontrada conforme os acidentes naturais permitem?

É possível que você ainda não esteja convencido da completa ausência de propósito no que diz respeito aos fenômenos naturais. Uma busca das quatro causas aristotélicas para um fenômeno natural corriqueiro pode revelar-se um exemplo mais simples. A chuva tem uma causa material (a água), uma formal (embora difícil de expressar, podemos associar um conjunto de eventos que formam a chuva) e uma eficiente (talvez uma saturação com sais numa nuvem cause a precipitação). No entanto, a causa final não é evidente. Será ela existente? Qual o propósito da chuva? Será regar as plantas? preencher os mares? Definitivamente não. O fenômeno ocorre sem a necessidade das quatro causas. Não há propósito na chuva.

Tenha em mente que este teste de adequação às causas aristotélicas pode ser feito pra todo e qualquer evento natural. Se não há propósito para a existência, a vida e tudo o mais, a vida em si deixa de ter valor? Você é quem decide. Você é responsável por aquilo que faz e só você pode dar sentido à sua vida. A natureza permanecerá indiferente, como sempre foi, gostemos da ideia ou não.

Referências sugeridas

Pedro Carvalho. Dissolvendo a Pergunta. Sociedade Racionalista, 11 de maio de 2013.
Pedro Carvalho. Respostas misteriosas para perguntas misteriosas. Sociedade Racionalista, 8 de maio de 2013.
Aristóteles. Metafísica, Edipro.
Theo Luiz Ferraz de Souza. Aspectos estruturais, dinâmicos e termodinâmicos envolvidos na montagem in vitro do capsídeo do Vírus da Hepatite C e na inibição da Proteína Inibidora de Apoptose XIAP… Tese de doutorado (2010) Domínio Público.
Geetha Vani Rayasam, Vamshi Krishna Tulasi, Reena Sodhi, Joseph Alex Davis, and Abhijit Ray. Glycogen synthase kinase 3: more than a namesake. Br J Pharmacol. 2009 Mar;156(6):885-98. PMCID: PMC2697722.
Peter Tompa. Intrinsically disordered proteins: a 10-year recap. Trends in Biochemical Sciences, Volume 37, Issue 12, December 2012, Pages 509–516. http://dx.doi.org/10.1016/j.tibs.2012.08.004.
Vladimir N. Uversky. Intrinsically disordered proteins from A to Z. The International Journal of Biochemistry & Cell Biology, Volume 43, Issue 8, August 2011, Pages 1090–1103, http://dx.doi.org/10.1016/j.biocel.2011.04.001.
Joran Piatigorsky. Puzzle of Crystallin Diversity in Eye Lenses. Developmental Dynamics, 1993 Apr;196(4):267-72. DOI: 10.1002/aja.1001960408.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Um pensamento sobre “Função/propósito ou auto-engano

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