Compreensão pública da ciência

Poder explicativo e probabilidade condicional

Quando fazemos uma pergunta científica estamos buscando respostas com o máximo de correção e que se encaixem dentro de modelos explicativos mais gerais. Não é preciso explicar que estes modelos mais gerais devem dispor de estruturas refutáveis. Isto permite que nossas ideias façam sentido dentro de um conjunto de princípios maiores. Um exemplo disso é a ideia de evolução das espécies, ainda que espécie seja um termo que cause alguma polêmica. Num primeiro momento, Darwin sugeriu que:

“Nenhuma definição ainda satisfez todos os naturalistas; ainda que todo naturalista saiba vagamente o que quer dizer quando fala de uma espécie. Geralmente o termo inclui o elemento desconhecido de um ato distinto de criação. (Darwin, 1859)”

Mais tarde, Darwin revisou seu entendimento do assunto de maneira mais crítica como segue:

“Mas é uma tentativa desesperada decidir este ponto sob bases sólidas, até que uma definição do termo espécie seja geralmente aceita; e a definição não deve incluir um elemento o qual não possa ser possivelmente verificado, tal como um ato de criação. (Darwin, 1871)”

Atualmente, a maior parte dos cientistas assume o conceito de espécie proposto por Theodosius Dobzhansky (1937) e Ernst Mayr (1942).

“[…] como grupos de populações que se cruzam na natureza, incapazes de trocar genes com outros grupos, que vivem na mesma área. (Meyer, 2005)

Darwin via no conceito de espécie uma limitação de nossa capacidade perceptiva. Por isso, percebemos eventos contínuos de maneira descontínua. Compreendia a necessidade de usar o termo espécie para fins de organização, mas reconhecia uma visão filosófica empobrecida no termo. Hoje, há simpatizantes da ideia de continuidade ou gradação e muitos que divergem da ideia de continuidade entre espécies para sustentar a ideia de descontinuidade de Mayr.

Não pretendo me alongar sobre a questão de continuidade. Esta pequena introdução só pretendeu chamar a atenção para o fato de que a discussão nunca é tão simples quanto algumas pessoas acreditam ser. A ideia de evolução surgiu como um candidato para explicar a imensa diversidade de seres vivos em nosso planeta. É importante notar que não foi Darwin o primeiro a propor a evolução como explicação. A ideia de evolução remonta a Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin), Jean-Baptiste Lamarck e Étienne Saint-Hilaire, por exemplo. Darwin apontou um mecanismo que explicaria a evolução, o que chamou de seleção natural.

Novamente, este é um terreno em disputa. Há muitos mecanismos que explicam de maneira parcial a evolução das espécies, tais como deriva genética, transferência horizontal de genes e a própria seleção natural. Como se vê, o que está em disputa entre cientistas é que peso atribuir aos mecanismos subjacentes à evolução das espécies e não se elas evoluem ou não. A ideia de que as espécies evoluem é intuitiva e, até o momento, tem sido sustentada por diversas evidências. Mas a ideia de evolução, como já mencionei antes, é mais antiga que as evidências que a suportam. Teria sido vidência? algum tipo de declaração profética? é claro que não! Trata-se do que chamamos verossimilhança.  Para entender melhor, suponha que você deseja oferecer uma explicação (conjectural) para um dado fenômeno. A pergunta seria algo como “se minha explicação estiver correta, o que eu esperaria encontrar como resultados experimentais?” Então você começa a acumular evidências experimentais e observar se elas se encaixam no seu modelo conjectural. Ao acumular evidências que suportem sua explicação, você eleva as probabilidades de ela estar correta e reduz a incerteza relacionada a ela. Agora podemos falar de probabilidade condicional ou função de verossimilhança com um pouco mais de confiança.

Uma probabilidade condicional funciona para investigar a probabilidade “P” de a explicação “A” estar correta dado que “B” é verdadeiro, onde B é uma evidência empírica. A sintaxe lógica seria: P(A | B), isto parece bastante intuitivo. Modelos explicativos originais tendem a ser intuitivos, já que são de mais fácil compreensão pela mente, o que não implica na sua correção (Cf. Propensão ao erro). Assim, a ideia de evolução é intuitiva e foi proposta para explicar por que há tamanha diversidade de espécies na natureza. Se esta ideia fosse verdadeira, deveríamos encontrar algumas indicações disso. Registros fósseis distribuídos nas eras geológicas, homologia entre órgãos de espécies distintas e conservação de grandes regiões de DNA sugerindo ancestralidade são alguns exemplos de evidências que suportam a ideia de que as espécies evoluem ao longo do tempo. Estas evidências assumem a posição de “B” em nossa sintaxe de probabilidade condicional. Quanto mais evidências empíricas, maiores as probabilidades de nossa conjectura “A” estar correta.

Assim, a teoria da evolução é uma função de verossimilhança ou o que chamamos de probabilidade condicional. Resumidamente, quer dizer que dadas algumas condições (as evidências observadas) temos uma probabilidade maior ou menor de que nossa proposição esteja correta. É claro que, como toda probabilidade, existe alguma incerteza atribuída (Cf. O valor da incerteza). Sabemos, no entanto, que algumas probabilidades são tão altas que são suficientes para descartarmos a ideia concorrente. Este é o caso das probabilidades de a evolução estar correta. Dadas as evidências que suportam a ideia, a probabilidade de as espécies evoluírem ao longo do tempo é altíssima. Você pode ainda não estar satisfeito com a ideia de probabilidade condicional ou verossimilhança. Minha sugestão é: tenha sempre em mente a natureza contingente do conhecimento científico; a ciência não gera respostas cabais ou imutáveis, mas é a melhor aproximação da realidade de que dispomos.

Referências sugeridas

Darwin, C.R. (1859) On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. Lodon: John Murray. [1st edition].
Darwin, C.R. (1871) The descent of man, and selection in relation to sex. Lodon: John Murray. Vol. 1.
Meyer, A. (2005) On the Importance of Being Ernst Mayr. PLoS Biol 3(5): e152. doi:10.1371/journal.pbio.0030152
Kimura, M (1968) Evolutionary rate at the molecular level. Nature 217 (5129): 624–626. doi:10.1038/217624a0

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Um pensamento sobre “Poder explicativo e probabilidade condicional

  1. É incrível que ainda haja alguém que discorde da Teoria da Evolução, o pilar central da biologia moderna, é uma teoria unificadora na biologia. Físicos invejam a biologia nesse ponto, pois eles(eu futuramente rsrs) não tem uma teoria tão sólida, e tão unificadora como a teoria da Evolução. Pena que nem todo mundo evoluiu!

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