Compreensão pública da ciência/Filosofia

O psicologismo cabe na ciência?

Façamos uma breve simulação. Seu vizinho acordou um pouco mais indignado que de costume e resolveu pensar sobre o problema da pobreza. Ele faz algumas críticas e lhe apresenta aquilo que considera ser a única saída para o problema; as políticas assistenciais do governo. Se interessado no assunto, naturalmente, você pede que seja apresentada alguma razão que sustente esta como a melhor solução. Seu vizinho lhe responde com outra pergunta. Sabe qual é o problema das pessoas contrárias à política de bolsas assistenciais do governo? Você replica: não, não sei! O problema, meu caro amigo, – prossegue ele – é que as pessoas perderam a capacidade de se colocar no lugar do outro. Imagine você passando fome, com a dignidade violentada e sem a menor esperança. Nessas circunstâncias você ainda seria contrário à concessão de bolsas? Emocionado e com um gole de saliva difícil de engolir, você se retira da discussão convencido de que a argumentação de seu vizinho foi consistentemente construída.

Qual o problema com esta forma de argumentação? A despeito do que o argumentador possa apresentar como razão aparente, o objetivo desta argumentação, em termos objetivos, é convencer de que a política de assistência do governo é eficaz na erradicação da pobreza. E quais foram as evidências apresentadas que suportam esta conclusão? Nada além de um artificio emocional ou psicológico. Nenhum dado sobre eficácia, estatísticas, etc. O psicologismo consiste em submeter toda forma de juízo ao crivo da psicologia. Alguém pode pensar: “Mas não é a psicologia o estudo da mente humana?” Embora esta seja uma definição demasiado restrita, eu diria que sim. “Então tudo o que concebemos não deve ser substrato da psicologia?” Ao que respondo: Se é produto da mente, pode ser analisado psicologicamente. “Então qual a razão da crítica ao psicologismo?” Bem, psicologismo é um termo pejorativo empregado quando se percebe uma argumentação que apela ao emocional em momentos onde a psicologia não é capaz de oferecer uma resposta. Acaso é o mundo produto da mente humana? Se você pretende negar a existência de um mundo objetivo independente de uma mente capaz de concebê-lo, então você é alvo fácil para praticantes do velho psicologismo.

Karl Popper usava o termo escolasticismo para indicar a atitude de argumentar sem um problema sério. Esta atitude, por parte de alguns filósofos, não corresponde ao padrão escolástico da Idade Média e, exatamente por isso, Popper usou o termo escolasticismo para denotar uma postura filosófica inadequada. Por analogia, podemos entender o psicologismo como uma forma não séria de fazer psicologia. Como podemos identificar se um problema é psicológico ou lógico? Para lançar luz sobre esta questão, recorremos a Hume que, interessado em saber se podemos justificar nossas crenças, levantou dois problemas: um problema lógico (1) e um problema psicológico (2) formulados como segue:

1 – Somos justificados em raciocinar partindo de exemplos (repetidos), dos quais temos experiência, para outros exemplos (conclusões prováveis), dos quais não temos experiência?

2 – Por que, não obstante, todas as pessoas sensatas esperam, e creem que exemplos de que não têm experiências conformar-se-ão com aqueles de que têm experiência? i.e., Por que temos expectativas em que depositamos grande confiança? (Popper, pp. 15) 

Não pretendo me alongar nos detalhes destes problemas dado que Popper dedicou-se à resolução de ambos. Desejo chamar atenção para o foco de cada um. Ambos se referem ao problema de justificar crenças, mas o primeiro é lógico e tem um valor epistemológico importante para a ciência. Isto porque dele surge a natureza contingente do conhecimento científico. A resposta formulada pelo próprio Hume é um categórico NÃO. O segundo problema é algo que nos incomoda, mas é de um interesse ainda metafísico. Costumo pensar que os problemas e as ideias, depois de superarem a fase metafísica, passam para um nível filosófico mais consistente e somente então a ciência começa a interessar-se por eles.

Outro caso é o problema do universo desinteressado. Alguns teólogos formulam como segue.

Se Deus não existe, então o universo, a vida e tudo o mais não têm um propósito objetivo.

Esta proposição leva teólogos a sustentarem que a visão do teísmo bíblico de vida após a morte é mais consistentes. Isto porque proporciona um propósito que traz conforto. Note que o problema do propósito não é lógico, trata-se de um problema psicológico. Ele nada tem a dizer que possa transcender as barreiras da metafísica. Dito isto, a ciência não deve se interessar por este tipo de problema. Há, no entanto, quem defenda que este é um problema legítimo da ciência. Esta é uma postura condizente com o psicologismo. Oferecer uma solução para este problema não é tarefa da ciência. Dizer que uma resposta deve ser preferível proporcionalmente ao nível de conforto que ela carrega é praticar psicologismo. O valor de verdade de uma resposta nada tem a ver com, digamos, sua palatabilidade.

No exemplo de nossa conversa fictícia, o interlocutor foi convencido não com argumentos, mas emocionalmente. Uma discussão séria não pode ser feita com base em artifícios emocionais, mas com argumentos, evidências que suportem seu ponto de vista. Caso contrário, estaríamos sendo irresponsáveis, usando falácias emocionais e praticando a melhor forma do psicologismo. Não, o psicologismo não cabe nas boas práticas de ciência.

Referências sugeridas

POPPER, KR. Conhecimento Objetivo: uma abordagem evolucionária. Itatiaia, 1975.
Pedro Carvalho. Respostas misteriosas para perguntas misteriosas. Sociedade Racionalista, 8 de Maio de 2013.
Pedro Carvalho. Dissolvendo a pergunta, Sociedade Racionalista, 11 de Maio de 2013.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

4 pensamentos sobre “O psicologismo cabe na ciência?

  1. Pingback: Imposturas Científicas: o Caso da Fosfoetanolamina | CuriosoRealista

  2. Excelente exposição. A esse respeito, tenho mais dúvidas que respostas. Se, a Filosofia lida com um universo nem sempre enquadrado no que se conhece como “cientificamente correto”, como, apesar da ausência de evidência que corroborem tal contexto, podemos prescindir do envolvimento psicológico como forma de argumentação? Devemos, simplesmente considerar inexistente aquilo que não conseguirmos provar cientificamente?
    Obrigado pelas luzes que obtive do texto em questão.

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