Compreensão pública da ciência

Responsabolômica!

Imagem de microarray, fonte: Wikipedia

Você já deve ter ouvido falar sobre os projetos genoma ou, pelo menos, do Projeto Genoma Humano (HGP) dirigido pelo geneticista Francis Collins. Por genoma, entendemos o conjunto de todos os genes de um organismos. O projeto que mapeou o genoma humano demandou investimentos altíssimos e, segundo alguns, resultados que não satisfizeram as expectativas. Os projetos GENOMA da vida nos ajudam todos os dias, eles possibilitam reconstruir árvores filogenéticas e saber se genes são conservados entre diferentes espécies. Pois é, há muitos projetos de mapeamento genômico. Isso não é uma exclusividade humana. Há projetos de mapeamento genômico de bactérias, fungos, Archaea e diversos animais que não o Homo sapiens.

Por analogia aos projetos genoma, muitos outros projetos de mapeamento em larga escala foram criados gerando o que alguns chamam de a era da “omica.” Há muita crítica aos grandes projetos de mapeamento. De um lado, alguns dizem que se trata de reducionismo e nada sairá de produtivo disso. De outro lado, outros dizem que não é um modo inteligente de se fazer pesquisa dado que gera mais dados do que somos capaz de analisar e não geram uma informação bona fide para uso imediato. Particularmente, não penso que seja bem assim. Projetos de mapeamento são importantes para as pesquisas que fazemos todos os dias. Há exageros, contudo, de modo geral, essas iniciativas são bastante úteis quando queremos começar um estudo molecular. Hoje temos diversos pesquisadores pelo mundo estudando o proteoma humano e de diversas outras formas de vida. Estes projetos visam descrever o conjunto de todas as proteínas de um organismo. Este tipo de informação é bastante útil quando desejamos conhecer o fenótipo de uma célula frente a uma dada situação.

Em 2010, o National Institutes of Health (NIH) começou a mapear o conjunto de todos os microrganismos que vivem em associação com o corpo humano, sejam eles patogênicos ou não. Esta iniciativa ficou conhecida como Projeto Microbioma Humano (HMP). O conjunto de artigos que saiu no jornal PLoS ONE sobre o assunto revelou novas espécies de bactérias e algumas importantes implicações para a saúde humana. Em abril de 2013, o presidente dos EUA deu a seguinte declaração:

“Se queremos fazer melhores produtos, temos também que investir em melhores ideias… Cada dólar investido para mapear o genoma humano retornou 140 dólares à nossa economia… Hoje, nossos cientistas estão mapeando o cérebro humano para desvendar respostas para a doença de Alzheimer… Agora não é hora de destruir este investimento na criação de emprego em ciência e inovação. É hora de atingir um nível de pesquisa e desenvolvimento nunca visto desde o auge da Corrida Espacial.”

A declaração de Obama se refere à iniciativa “Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies” (BRAIN), para a qual o governo norte americano disponibilizou 110 milhões de dólares no ano fiscal de 2014. Trata-se de um projeto audacioso que visa mapear cada neurônio do cérebro humano visando melhor compreender como nossa rede neural está estruturada. Eventualmente, alguma informação funcional pode surgir deste mapeamento. Francis Collins, diretor do NIH, declarou que entre os objetivos do projeto BRAIN estão entender as causas e possíveis maneiras de prevenir e curar doenças como autismo, Alzheimer, esquizofrenia, epilepsia e injúrias traumáticas do cérebro. As declarações de Obama e Collins tem duas importantes implicações. De um lado, cria uma expectativa gigantesca sobre o trabalho destes cientistas. Isto pode ser motivo de crítica e provável frustração por parte da opinião pública frente aos resultados obtidos que, geralmente, são bem mais modestos que a propaganda. De outro lado, coloca uma tarefa colossal nos ombros dos grupos que recebem o investimento, sujeitando-os a uma única condição aceitável, a de oferecer respostas positivas. Isso pode ter consequências desastrosas (Cf. Quando a criatividade falha).

Dr. Sebastian Seung no TED Talks

O projeto BRAIN, provavelmente, foi fortemente influenciado pelo que ficou conhecido como conectoma. Proposta pelo professor de neurociência computacional Sebastian Seung (Massachusetts Institute of Technology – MIT), a ideia de conectoma se refere ao mapeamento de todas as conexões entre neurônios. Uma das principais críticas ao projeto conectoma de Seung, como a apresentada por Peter Reiner, é que ele não diz muito sobre como os neurônios funcionam ou como as vias de sinalização celular se integram. A resposta do professor Seung é bastante objetiva.

“Eu não sou grandioso, você é grandioso. Você está tentando entender como o cérebro funciona. Tudo o que vou fazer é mapeá-lo. […] É realmente grandioso o que você pode fazer com os dados que estou tentando reunir […] Nós precisamos de dados, é assim que defendo minha ideia.

Divulgar um projeto de mapeamento exige grande responsabilidade dadas as implicações catastróficas que expectativas frustradas podem gerar. A meu ver, a forma com que Obama e Collins divulgaram o projeto BRAIN é bem diferente da forma como Seung divulga seu projeto conectoma. Seung não parece interessado em dizer coisas que grandes investidores desejam ouvir para montar propagandas de arrecadação de fundos. Embora dirija um grande projeto, o professor Seung fala de uma maneira bem mais modesta que Collins ou Obama. Isso faz toda a diferença.

Referências
Jonathan Eisen. The human #microbiome project (HMP): new papers and news stories. Blog phylogenomics6/14/2012.
The White House, Office of the Press Secretary. Fact Sheet: BRAIN initiative. April 02, 2013.
Sebastian Seung. Conectomics: Tracing the wires of the brain. The DANA Foundation, Cerebrum. November 03, 2008.
Sebastian Seung. I am my connectome. TED Talks. 2010.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Um pensamento sobre “Responsabolômica!

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