Compreensão pública da ciência

Artigos da pós-modernidade

Qualquer um que acredite serem as leis da física meras convenções sociais estão convidados a tentar transgredir tais convenções pela janela de meu apartamento (moro no 21° andar).

Ah a pós-modernidade! Marcada por formas de arte tão sofisticadas quanto incompreensíveis. Confesso que não sou muito sofisticado para algumas formas de arte. Em realidade, apenas raramente (muito raramente) vou a uma exposição ou galeria. Não que a arte visual me desagrade, mas não tenho um histórico muito animador com expressões visuais. Em especial, recordo de uma visita ao Museu de Arte de São Paulo (MASP) onde presenciei um grupo de senhoras vestidas distintamente que dedicavam algo de seu tempo plantadas em frente a um, também distinto, quadro branco com uma mancha colorida no meio. Naquele momento achei que estivessem apenas tão desapontadas quanto eu, mas logo notei a expressão analítica em seus olhares. Tratava-se de uma exposição de arte pós-moderna.

Na realidade, não é bem sobre a arte pós-moderna que desejo falar. Mas sobre a extensão dos tentáculos pós-modernos sobre outros campos, como a ciência. Afinal, quem nunca ouviu falar de coisas como terapia quântica, toque terapêutico ou outras tentativas de conciliar ciência com misticismo? A defesa dessa postura está associada ao pós-modernismo, embora não tenha sido criada por ele. A frase de Alan Sokal, com a qual iniciei esta discussão, já adianta o problema real com o qual relativistas e idealistas tem que lidar. Popper defendia que a única postura coerente é o realismo e citando Winston Churchill lançou a provocação:

Reafirmo com ênfase… que o sol é real, e também que é quente – de fato, quente como o inferno e que, se os metafísicos disso duvidam, devem ir lá e ver.

Agora, permita-me apresentar o autor da frase no inicio do texto e seu caso. Alan David Sokal recebeu seu bacharelado pela Harvard University, doutorado pela Princeton University e ensina física na New York University. Alan é um crítico sagaz dessa postura pós-moderna e atraiu atenções após uma empreitada que ficou na história das revistas científicas. Alan, deliberadamente, submeteu um artigo falso, repleto de excentricidades, pomposidade e extremamente prolixo à revista Social Text mantida pela Duke University. A revista é declaradamente partidária de ideias pós-modernas. Intitulado “Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica” o texto de Alan é um típico artigo da pós-modernidade. Ele objetivava mostrar como a falta de critérios e objetividade podem ser danosas às boas práticas de ciência e produzir conteúdo de qualidade duvidosa. No bom português, equivale a dizer que ciência pós-moderna é a festa do caqui, a casa da mãe Joana. Nas palavras do professor Jairo Silva (UNESP):

Qualquer referee que lesse esse artigo e que tivesse um mínimo de formação científica (digamos, equivalente a de um segundo grau completo) seria certamente assaltado por sérias dúvidas (e por convulsões de riso, se tivesse cursado pelo menos Física I em nível universitário), mas Social Text aceitou-o e publicou-o.

Após a polêmica causado pelo artigo, Alan juntou-se ao físico Jean Bricmont numa publicação ainda mais polêmica, o livro “Intellectual Impostures” dedicado a uma crítica, dessa vez explícita, aos cientistas e filósofos simpatizantes da corrente pós-moderna, especialmente os franceses. Entre os acusados de cometer imposturas intelectuais figura o filósofo francês Alain Badiou que defende algo como:

[…] a independência da hipótese do contínuo (o contínuo tem a menor cardinalidade infinita não-enumerável) dos outros axiomas da teoria standard dos conjuntos tem, sim, como conseqüência o triunfo da política sobre o realismo sindical.

Bem, as revistas aprenderam a lição e estão bem mais criteriosas agora, dirão alguns. Para testar esta hipótese, um grupo sérvio resolveu repetir a experiência de Alan Sokal e submeteu um artigo intitulado “Investigação das heurísticas hermenêuticas transformativas para o processamento de dados aleatórios.” Entre as referências do artigo aparecem os nomes de Max Weber, Michael Jackson e do ator pornô Ron Jeremy. Como se não bastasse, o artigo faz referência a alguns estudos recentes desenvolvidos por Bernoulli e Laplace (mortos há mais de 180 anos) e a um tal “Journal of Modern Illogical Studies.” Se você acha que não pode ficar pior, provavelmente não sabe que um dos autores diz chamar-se “Sagdiyev, B” também conhecido como Borat, o jornalista Kazach!

Entre janeiro e junho de 2013, o correspondente da prestigiada revista Science, John Bohannon, submeteu 304 artigos falsos para diversos jornais de acesso aberto. Os resultados não foram muito animadores. Por um lado, penso que a iniciativa tenha um viés político para mostrar que jornais fechados são mais criteriosos que aqueles de acesso aberto. A velha política do pague para ler. Por outro lado, a experiência revelou resultados que não podem ser ignorados. Como um pesquisador inexistente, vinculado a um instituto inexistente consegue ter um artigo aceito para publicação pelo conselho editorial do “Journal of Natural Pharmaceuticals”? Bohannon relatou que mais da metade das revistas aceitou os artigos falsos. Naturalmente, nenhum foi publicado.

Segundo o correspondente da Science, o jornal PLOS ONE foi o único que chamou atenção para potenciais problemas éticos, tais como a falta de documentação sobre o tratamento dos animais utilizados nos experimentos. O corpo editorial da revista checou os nomes e afiliações de cada autor do artigo antes de enviar para a revisão e rejeitou os artigos duas semanas depois com base na qualidade científica.

Bem, ao menos assim sabemos em que jornais podemos confiar. Felizmente, o jornal PLoS ONE passou com distinção pela prova da Science. Devemos manter a vigilância com relação ao oportunismo de práticas disfarçadas de ciência.

Referências
Jairo José da Silva. Imposturas intelectuais: algumas reflexões, Nat. hum. v.6 n.1 São Paulo jun. 2004.
A Serbian Sokal? Authors spoof pub with Ron Jeremy and Michael Jackson references, Retraction Watch, September 23, 2013 at 3:06 pm.
Science reporter spoofs hundreds of open access journals with fake papers, Retraction Watch, October 3, 2013 at 2:00 pm.
Alan Sokal e Jean Bricmont. Imposturas intelectuais: O abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Record, 2006.
John Bohannon. Who’s afraid of peer review? Science, Vol. 342 no. 6154 pp. 60-65, 2013. DOI: 10.1126/science.342.6154.60.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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