Compreensão pública da ciência/Filosofia

Dissolvendo a pergunta

Por Pedro Carvalho

No artigo anterior, Respostas Misteriosas para Perguntas Misteriosas, eu expliquei o tipo de estado mental que você deve ocupar quando uma pergunta misteriosa é respondida: o mistério tem que sumir. Só que é mais fácil falar do que fazer. Seres humanos são máquinas que não conhecem o próprio software, e a gente não é capaz de ver exatamente o que o nosso código-fonte vai dizer. Mas eu estou me adiantando.

Como se dissolve uma pergunta?

Eu disse, talvez você tenha percebido, “dissolver” não “responder.”  E isso é porque algumas perguntas simplesmente não merecem uma resposta. Elas não têm uma resposta. Elas não são, sequer, perguntas.

Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá pra ouvir, ela faz barulho?

Não vamos entrar em relativismo não-científico aqui, porque geralmente a discussão nunca chega num nível tão profundo. Geralmente é algo simplesmente nesse nível:

Alice: “É claro que ela faz barulho, tudo faz.

Bob: “Mas se não tem ninguém pra ouvir ela, como pode ter barulho?

Se você perguntar para Alice e Bob qualquer coisa mensurável sobre o evento, eles vão dar as mesmas respostas: há vibrações no ar, um aparelho de gravar sons gravaria o barulho da árvore caindo, etc. Não há diferenças entre as expectativas de Alice e de Bob. Só há diferença entre o significado deles: para Alice, barulho são as vibrações viajando pelo ar; para Bob, barulho é a sensação psicológica subjetiva de ouvir. Uma vez que você desdobra a pergunta assim, ela não tem sentido. Uma árvore caindo na floresta sozinha produz vibrações físicas, mas não produz sensações psicológicas subjetivas.

Quando você acredita em alguma coisa – desde “O céu é azul” até “A Terra gira em torno do Sol numa elipse” ou qualquer outra coisa -, essa coisa precisa render experiências. Tudo aquilo em que você acredita precisa fazer alguma diferença no mundo. O Dragão na Garagem de Carl Sagan é geralmente usado para defender que o ônus da prova está em quem faz a afirmação, mas você pode obter uma outra conclusão dele: ele não acredita de verdade que tem um dragão na garagem dele. Não importa o quanto ele diga que acredita, não importa o quanto ele acredite que acredita, no fim do dia, ele vai agir como se não houvesse um dragão na garagem dele. Em algum momento eu vou escrever um artigo sobre esse assunto em específico. Então se você faz uma pergunta cuja resposta não afeta em nada as suas expectativas sobre o mundo, ela não é uma pergunta com um significado.

… mas ainda assim você pode estar tentado se perguntar, “Mas de verdade, faz barulho?” Você já respondeu tudo o que pode ser respondido. Você aprendeu tudo o que pode ser aprendido. Então por que a pergunta persiste?

Nós sabemos a massa, formato, composição e órbita de Plutão. Mas ele é um planeta?

Essa é uma pergunta similar. E novamente, se você sabe a resposta das quatro primeiras partes da pergunta, não deveria estar sobrando nada. Isso é simplesmente uma discussão sobre o significado de uma palavra.

Você é um computador. O que está acontecendo na sua cabeça, no seu cérebro, é uma computação – um algoritmo. Tudo o que você vê, faz e pensa é visto através da lente desse algoritmo. Seres humanos não estão acostumados a pensar desta forma. Quando eles vêem um livro, eles não pensam “Meu córtex visual contém a imagem de um objeto que seria categorizado sob o rótulo interior ‘livro,’” tudo o que eles pensam é “Eu estou vendo um livro.” Porque é assim que um algoritmo é por dentro: você sente como se essa fosse a realidade, não como se fosse uma representação interna feita pela sua computação.

Mas Plutão é um planeta ou não, de verdade? O que você está tentando descobrir com essa pergunta? Seu cérebro já possui informações o suficiente para saber todas as previsões sobre o comportamento de Plutão. E ainda assim, parece que a pergunta não foi realmente respondida, porque o seu algoritmo por acaso está programado de forma que ele dá nome para as coisas e acha que eles existem.

O que é um nome? Aquilo que nós chamamos uma rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo perfume” (William Shakespeare).

Um nome só é tão significativo quanto as inferências que ele te deixa fazer. A única razão porque temos nomes para as coisas é porque nós não temos tempo hábil (nem vontade) de nos referirmos a Marte o tempo todo como “um objeto sólido aproximadamente esférico formado de rochas viajando numa elipse com o Sol habitando um de seus focos, e cuja massa é grande o suficiente para limpar sua órbita de lixo,” nem de nos referirmos a um livro como “um objeto sólido, geralmente de formato retangular mas nem sempre, composto de diversas folhas (geralmente de papel) onde informação está impressa na forma de símbolos (podendo ser imagens ou letras).” Ninguém faria isso. Mas se você repetir essa última definição, todo mundo vai saber que você está falando de um livro. E uma vez que você sabe que Plutão é um objeto gasoso aproximadamente esférico formado de X elementos viajando numa elipse com o Sol habitando um de seus focos, e cuja massa não é grande o suficiente para limpar sua órbita de lixo, a pergunta de “É um planeta?” se torna supérflua, redundante, e sem sentido. Uma vez que você consegue descrever as características de Plutão, saber se ele é um planeta não modifica em nada o seu modelo dele.

Mas isso não parece o suficiente. Porque é assim que o seu algoritmo funciona: quando você dá um nome para algo, ao invés de o seu cérebro simplesmente se comportar e dizer que aquilo é um rótulo que serve só pra poupar tempo, ele automaticamente assume que aquilo é uma propriedade do objeto, independente de todas as outras. Ele não reconhece que o nome serve só de atalho para todos os outros atributos: ele faz com que o nome se torne um atributo por si só. E como o seu cérebro é você, é assim que você vê o mundo: como se um nome tivesse um significado mais profundo que ou além das inferências que ele representa.

Uma vez que você sabe como esse algoritmo parece por dentro, você está um passo mais próximo de dissolvê-lo. Da próxima vez que você se pegar pensando sobre perguntas do tipo “Mas é um planeta, afinal?” seria bom parar e tentar pensar sobre quais expectativas no mundo real mudam dependendo da resposta para essa pergunta. Se nenhuma muda, então provavelmente isso é uma unidade extra, um atributo que o seu cérebro inventou e que não corresponde realmente a nada no mundo real, e você sabe tudo o que precisa saber. A pergunta deve ter desaparecido.

E agora você sabe dissolver essa pergunta em particular. Ou essa classe de perguntas, de qualquer forma. Sempre que você tem uma interrogação que parece não modificar nenhum observável, pode ser porque o significado da palavra de alguma forma perdeu a correlação com o que ela realmente quer dizer.

Mas voltando ao assunto original, isso não pode ser aplicado ainda para o Livre Arbítrio. Eu ainda não o defini, eu não sei o que ele é, e eu tenho dificuldade sequer imaginando quais são as interrogações que essa expressão esconde. Não, não, esse artigo foi só um exemplo. Eu te mostrei não só por que a pergunta “Plutão é um planeta?” é incorreta e sem sentido, mas também de onde ela vem. Existe um algoritmo na sua cabeça que transforma nomes em atributos, e é assim que o mundo parece que é por dentro.

“Nós temos Livre Arbítrio?” Você pode ter percebido, baseado no que eu já escrevi, que a resposta pra essa pergunta provavelmente será estranha, ou sequer se parecerá com uma resposta. Como pareceria o mundo – e eu realmente quero que você pare e tente pensar nisso – se a resposta fosse sim, ou não? Qual seria a diferença real? A pergunta, é claro, é bastante difícil. Uma outra pergunta mais fácil, e uma que definitivamente tem resposta, é “Por que eu acho que tenho Livre Arbítrio?” Mesmo se no final das contas acabar que o conceito não faz sentido, essa pergunta sempre terá uma resposta.

No próximo artigo, eu vou dar a resposta definitiva para a pergunta, e no seguinte eu irei dissolvê-la e achar o algoritmo que a originou, assim como eu fiz acima. Enquanto isso, eu vou deixar uma lição de casa para você. Tente fazer isso por si só. Tente dissolver e desmontar os conceitos por detrás da pergunta. Tente achar o significado dela, dissolvê-la, e tentar entender o sentido dela. Responda a todas as interrogações que surgirem no processo, e tente descobrir o algoritmo que gerou a pergunta antes de mais nada. Essa é sua lição de casa, e é um ótimo treinamento – das Perguntas Difíceis, essa é uma das mais fáceis. Depois dessa, você estará preparado para encarar os peixes grandes.

(Este artigo é a segunda parte de uma série maior sobre como dissolver a famosa questão do Livre Arbítrio.)

Notas

Este artigo foi originalmente publicado em A Scientist’t Thesis.
Posteriormente foi reproduzido pelo site da Sociedade Racionalista.

Licença Creative Commons
Este artigo de Pedro Carvalho, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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