Compreensão pública da ciência/Filosofia

Pergunte à formiga!

Há um tempo, uma conversa esclarecedora com um amigo me fez pensar se compreendemos o que é uma pergunta científica. A conversa, como de costume, inicia num tom não convencional sobre a relação mutualística entre formigas e plantas. O caso é algo assim:

a) A planta oferece à formiga alimento e local para nidificar, direta ou indiretamente (neste caso, o ninho é na própria planta);
b) Em troca, a formiga defende o ninho e, consequentemente, a planta;

Meu amigo, como o bom naturalista que é, passou algum tempo observando o comportamento dessas formigas e sua relação com a planta hospedeira. Ele notou que aquelas formigas realizavam a ação de poda da planta que lhes fornecia abrigo. Um comportamento estranho, já que diminui a área fotossintética da folha e parecia prejudicar a planta. Poderia este comportamento reduzir o valor adaptativo da planta? É tentadora e quase automática a atitude de lançar a pergunta “Por que esta formiga faz isso?”, “Qual o motivo por trás do comportamento?” Meu amigo tinha algumas hipóteses bastante razoáveis para explicar o evento. Contudo, antes de pô-las à prova, queria testar a força de sua pergunta. Seria a pergunta adequada? Seria uma pergunta formulada corretamente? A resposta a estas perguntas é um categórico “não.” A natureza não faz planos, não possui objetivos ou finalidades. Assim, falar de um motivo por trás de um comportamento só faz algum sentido se estivermos falando de entidades capazes de racionalizar (i. e., tomar decisões complexas baseadas em julgamento prévio).

Você pode pensar que uma formiga ou mesmo um organismo mais simples como um fungo são capazes de responder de maneira “programada” a um estímulo e isto seria tomar uma decisão. Se um fungo produz esporos (uma forma de resistência ao estresse) quando submetido ao tratamento com um agente estressor ele teve que experimentar um evento e tomar uma decisão sobre como agir. É um algoritmo simples de se imaginar. Você recebe um dado de entrada e deve emitir alguma resposta. Independente da resposta emitida, ela é produto de uma decisão, consciente ou não.

Mas este tipo de capacidade de tomar decisões poderia ser chamado de racionalização? A resposta é “não”. Vamos exercitar a imaginação: você projeta um robô simples dentro de um campo com postes de cores distintas. Seu robô está equipado com um sensor de cores e é capaz de tomar a decisão de virar à esquerda ou à direita dependendo da cor do poste com o qual se depara enquanto se move pelo campo. Se o poste é azul ele vira à direita, se é vermelho ele vira à esquerda. Está claro que o algoritmo envolve a tomada de decisão, mas você diria que o robô realizou um julgamento? Em termos objetivos, sim. Ele precisou julgar se o poste era vermelho ou azul para tomar uma decisão.

É claro que você, sabiamente, notou o fato de que projetamos nosso robô com um algoritmo e ferramentas que lhe permitissem distinguir entre as duas cores. Este algoritmo de tomada de decisão é tão simples que parece inimaginável que este robô cometa um erro no julgamento de que poste é azul ou vermelho. Infortunadamente, talvez, na natureza o algoritmo nem sempre é tão eficiente. Erros de julgamento são bem frequentes. Nós, humanos, somos também embutidos de ferramentas que nos permitem distinguir entre cores ou demais características. Estas ferramentas que nos capacitam a tomar decisões também nos fazem cometer erros com bastante frequência, o daltonismo é um exemplo deste tipo de problema com nosso, digamos, algoritmo genético. Assim, está claro que um julgamento não precisa ser sempre correto para gerar uma decisão.

Sabemos que nosso robô projetado é capaz de tomar decisões baseadas em julgamentos, assim como uma formiga ou um fungo. Os dois últimos, por sua vez, se permitem tomar decisões baseadas em erros de julgamento. Mas se você está atento à leitura, notou que tratei o ato de racionalizar como a capacidade de tomar uma decisão complexa. Para explicar, voltemos ao caso da interação formiga-planta. Para admitir que a formiga deve realizar uma ação para atingir um determinado objetivo, teríamos que supor algo como a seguinte ordem de coisas:

1. que a formiga recebe uma dica química da planta;
2. que a dica química a faz podar as folhas;
3. que a formiga perceba algum benefício para si ou para sua colônia no ato de podar;
4. que ela julgue o benefício como digno de perpetuar a ação de poda.

Esta ordem de coisas que se seguem é compatível com um processo de racionalização e envolve uma decisão complexa. Nós somos capazes de tomar decisões complexas baseadas em julgamentos e, por isso, faz sentido dizer que algumas de nossas ações tem propósitos definidos, ainda que ocultos. É mais ou menos como na situação descrita pelo físico Weinberg:

“O romance “Where Angels Fear to Tread”, de E.M. Forster, dá um bom exemplo de teleologia ao traçar a diferença entre descrição e explicação. Philip está tentando descobrir por que sua amiga Caroline ajudou a consumar um casamento entre a irmã de Philip e um jovem italiano a quem a família de Philip não vê com bons olhos. Depois de Caroline relatar todas as conversas que teve com a irmã de Philip, Philip diz: “O que você me deu é uma descrição, não uma explicação”. Todos sabem o que Philip quer dizer com isso: ao pedir uma explicação, ele quer saber dos propósitos de Caroline (Weinberg, 2001).”

É este o sentido de propósito que penso não fazer sentido na natureza, a menos que estejamos falando de seres como Philip, um típico Homo sapiens detentor de capacidades cognitivas notoriamente bem desenvolvidas.

Naturalmente, há um problema que envolve a capacidade de detectar racionalização em indivíduos de outras espécies. Você teria que inquirir a formiga sobre seu propósito (em termos de causa final) ao realizar uma determinada ação. Confesso não ter certezas a respeito da capacidade cognitiva de formigas ou plantas. Contudo, suspeito que este comportamento faça parte de um repertório complexo, o qual é produto de seleção, deriva e transferência horizontal de genes sob rígido controle epigenético de milhares de anos e não de uma ação deliberada.

Teria a formiga, deliberadamente, decidido podar as folhas para obter algum benefício ou seria o comportamento parte de um repertório mais complexo e não deliberado que garantiria a sobrevivência da colônia? É possível demonstrar experimentalmente se há correlação ou não entre 1. a ação de poda e 2. o aumento do valor adaptativo. Com experimentos auxiliares e alguns controles é possível ainda observar se esta correlação implica causalidade. Contudo, nenhum experimento é capaz de demonstrar que a formiga decidiu realizar a ação de poda para elevar o valor adaptativo de sua planta ninho.

Se algo não pode ser testado, claramente não pode ser objeto de ciência. O que não significa que não possa vir a ser, mas enquanto não o é interessa apenas à filosofia. Richard Dawkins já foi vitimado pelo uso do termo propósito ao falar sobre o que chamou “fenótipo estendido” no capítulo final do livro “O gene egoísta.”

“Não está inteiramente claro qual é o propósito Darwiniano, mas deve haver um, para os castores dispenderem tanto tempo e energia para construir isso. A represa criada por eles provavelmente serve para proteger os castores dos predadores…” (Dawkins em O Gene Egoísta).

Ambos os livros “O fenótipo estendido” e “O gene egoísta” sofreram fortes críticas por conter erros ou confusões conceituais, como a causada pelo termo “propósito Darwiniano“. É uma afirmação forte sobre o comportamento dos castores, tal como seria sobre as formigas. E se o comportamento de poda realizado pelas formigas fosse correlacionado com um aumento do valor adaptativo da planta? Isso autorizaria a conclusão de que a planta, deliberadamente, produz um sinal químico que induz a formiga a elevar seu valor adaptativo? Que a formiga, deliberadamente, poda a planta pela mesma razão? Penso mesmo que ambas as respostas sejam “não.” A planta, possivelmente, produz algum sinal químico. Contudo, não se trata de uma ação deliberada, mas de um evento que acabou por mostrar-se benéfico para a planta ao longo do tempo.

Tal como em Dawkins, falta em muitos pesquisadores a leitura filosófica necessária para discernir entre perguntas científicas e filosóficas. A filosofia permite-nos aventurar em meio a perguntas do tipo “por quê?”, enquanto a ciência valoriza mais perguntas do tipo “como?”. Devemos ser responsáveis quando falamos sobre ciência. A ciência empírica, aquela que exige testes, não é capaz de responder perguntas do tipo “por quê?”. Isso, sem dúvida, retira muito da magia da ciência e revela seus limites. Ao mesmo tempo, é o que nos permite apreender a realidade objetiva e entender mecanismos ou processos que ocorrem na natureza. O motivo pelo qual esses mecanismos se desencadeiam fica por conta de nossa imaginação. Como meu amigo sabiamente percebeu ao analisar a força da pergunta “qual o motivo?”, a natureza não possui motivações.

Referências

Steve Davis. The Extended Phenotype – How Richard Dawkins Got It Wrong Twice. In Science 2.0, February 16th, 2009, 01:44 AM.
Richard Dawkins. O gene egoísta. Companhia das Letras. 1976.
Karl Popper. A lógica da pesquisa científica. Cultrix, 1958.
Steven Weinberg. Os limites da explicação científica. Folha de São Paulo. 24 de junho de 2001.

Agradecimentos

À Paulo Sergio Mendes Pacheco Junior e João Henrique Coelho Campos pela leitura crítica.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

4 pensamentos sobre “Pergunte à formiga!

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