Compreensão pública da ciência/Educação

O toque feminino que revolucionou a biologia

Margaret Belle (Oakley) Dayhoff (1925-1983).

Há muitos anos comecei a estudar bioquímica e, como todo bom curioso, sempre tive a necessidade de saber porque razão as coisas recebem os nomes que tem ou são como são. Para este tipo de curiosidade a bioquímica é um campo farto. Quando iniciei o mestrado interessei-me mais pelas proteínas e isso me fez mergulhar fundo em questões de nomenclatura, modificações pós-traducionais e massas isotópicas de aminoácidos. Algumas das leituras sobre proteômica me levaram a conhecer nomes importantes entre os bioquímicos de proteínas como os de Russell Doolittle e Margaret Dayhoff. Naturalmente, há muitos outros, mas não pretendo me estender em exemplos.

Logo voltaremos a falar sobre o trabalho da Dr. Dayhoff. Por agora desejo falar sobre as mulheres e seu toque genial no processo da descoberta. A razão é que elas sempre deram contribuições inestimáveis para a ciência, mas este é um fenômeno negligenciado. Os laboratórios parecem não reconhecer esse trabalho. Em meu campo de pesquisa vejo uma imensa desproporção de gênero. Sempre ouvi coisas como “é necessário estimular a participação feminina na ciência” ou “temos poucas mulheres na ciência” e, no entanto, o que vejo é que há mais mulheres que homens em quase todos os laboratórios por onde passo. Parece-me que o problema não é uma participação tímida das mulheres no procedimento científico, mas sim a falta de reconhecimento de seu trabalho.

Rosalind Franklin (1920-1958).

A história tem revelado a imensa injustiça que cometemos e como isso retarda o processo da descoberta. Este é o caso de Rosalind Franklin, a responsável pelas primeiras imagens da dupla hélice de DNA. As publicações de Rosalind são anteriores as de Watson e Crick e, contudo, ninguém a reconhece como descobridora da estrutura do DNA. Documentos revelaram a imensa tensão no laboratório em que Rosalind trabalhava. Crick, Watson e Wilkins (chefe do laboratório de Rosalind) a odiavam, talvez pelo fato de ela ter alcançado os resultados que todos queriam, mas ninguém tinha. Rosalind jamais soube que seus dados eram enviados para Watson e Crick por seu próprio chefe. Após a morte de Rosalind, os três usaram os dados de imagem de Rosalind e tiveram o insight que ela não teve sobre a dupla hélice. Receberam os louros e nunca mencionaram a importância do trabalho desenvolvido por Rosalind. Wilkins chegou a escrever para Crick:

“E pensar que Rosie teve todas aquelas imagens em 3D por nove meses e não viu uma hélice. Cristo. (Wilkins em carta para Francis Crick)”

Vejamos o caso da Dr. Margaret Oakley Dayhoff, professora do Georgetown University Medical Center, quem mencionei no início da discussão. Dayhoff foi uma notável bioquímica que desenvolveu as primeiras aplicações matemáticas usando computadores para a pesquisa biológica em 1961. Algo que, mais tarde, ficaria amplamente conhecido como bioinformática. Sim! Dayhoff é uma pioneira na bioinformática. Na sua época, os computadores trabalhavam com cartão perfurado e isso tornava extremamente difícil a tarefa de analisar dados textuais com sentenças longas, tais como as sequências de aminoácidos das proteínas.

Imagem1

Tabela de aminoácidos. Atente para a adição da Selenocisteína, letra U.

A Dr. Dayhoff resolveu isso com uma ideia genial que todo biólogo conhece, mas poucos sabem de onde veio. Ela inventou o código de uma letra para representação dos aminoácidos constituintes das proteínas. Uma ideia simples que revolucionou completamente a forma de analisar dados em biologia molecular e bioquímica. Em vez de usar a sentença ‘Alanina‘ ou ‘Ala‘ para representar o aminoácido, o dado de entrada passou a ser apenas ‘A‘ para representar ‘Alanina,’ ‘G‘ para ‘Glicina,’ ‘C‘ para ‘Cisteína‘ e assim por diante.

As contribuições da Dr. Dayhoff não pararam por aí. Ela também desenvolveu as primeiras ferramentas para comparação entre sequências de aminoácidos, o que permitiu observar homologia entre proteínas de diferentes espécies. Começava a era das árvores evolutivas baseadas em similaridades entre proteínas. Antes mesmo do sucesso da internet, a cientista havia desenvolvido uma aplicação que permitia acessar os bancos de dados de proteínas (também desenvolvidos por ela) por linha de telefone. Simplesmente genial.

Dayhoff criou ainda o Atlas of Protein Sequence and Structure, o primeiro banco de dados público computadorizado de sequências de proteínas em 1965. A iniciativa permitiu que cientistas do mundo todo acessassem as sequências para desenvolver seus trabalhos. A cientista foi presidente da Biophysical Society, e em 1984 a sociedade americana de biofísica estabeleceu o prêmio Margaret Oakley Dayhoff Award, que é conferido anualmente a uma mulher com notável contribuição na área de biofísica.

O Atlas of Protein Sequence and Structure desenvolvido pela Dr. Dayhoff serviu de base para a criação do GenBank. Toda anotação que hoje está disponível sobre genes e proteínas é fruto dos trabalhos inicias da cientista. Seus trabalhos com bancos de dados, alinhamento de sequências e outras ferramentas de análise foram tão completos que David J. Lipman, diretor do National Center for Biotechnology Information (NCBI), chegou a declarar que Dayhoff foi mãe e pai da bioinformática.

Se você está lendo isso no seu computador, tablet ou smartphone lembre-se de Ada Lovelace, a mãe da programação e criadora dos primeiros algoritmos usados para controlar máquinas. Se você usa alguma aplicação de bioinformática para sua pesquisa ou para estudar, lembre-se de Margaret Dayhoff, a mãe e pai da bioinformática. Uma vez mais, devo dizer, não é um problema de participação, mas sim de intriga e falta de reconhecimento do trabalho desenvolvido pelas mulheres nos laboratórios que têm atrasado o progresso científico.

Referências
Strasser, B. J. 2012. Dayhoff, Margaret Oakley. eLS. 17 SEP 2012 Doi: 10.1002/9780470015902.a0023939.
Margaret O. Dayhoff 1925-1983. DNA. 1983, 2(2): 97-98. doi:10.1089/dna.1983.2.97.
IUPAC-IUBMB Joint Commission on Biochemical Nomenclature (JCBN) and Nomenclature Committee of IUBMB (NC-IUBMB). Eur. J. Biochem. 264, 607:609 (1999).
BRUNO J. STRASSER. Collecting, comparing, and computing sequences: the making of Margaret O. Dayhoff’s Atlas of Protein Sequence and Structure, 1954-1965. J Hist Biol. 2010; 43(4):623-60. doi: 10.1007/s10739-009-9221-0.
*Documentos históricos sobre a corrida pela descoberta da estrutura do DNA.

Lynne O. Elkin. Rosalind Franklin and the double helix. Physics Today. 56(3):2003.

Agradecimento
A João Henrique Campos, pela leitura crítica do texto e sugestão do título.

♣ Uma versão reduzida deste texto foi publicada no dia 08 de março, na página da Sociedade Racionalista (Facebook).

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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