Compreensão pública da ciência

Apelo à autoridade

Quando veículos de comunicação de massa tem sua credibilidade abalada lançam mão de um mecanismo bem conhecido. Tomam emprestada a credibilidade de alguém cuja imagem seja imaculada. Candidatos a cargos públicos, como o executivo, geralmente usam a imagem de artistas carismáticos para embelezar a campanha ou, em alguns casos, de intelectuais para endossar um discurso que, de outro modo, não convenceria. Há um tipo de falácia, conhecida como apelo à autoridade, que quase sempre está presente nestes casos. Ela é formulada como no exemplo “Se até Newton acreditava, você tem que acreditar!”

Recentemente, um pesquisador, Md. Abdul Ahad de Bangladesh teve um artigo retratado pela revista Journal of Biology and Life Science. Mas o que isso tem com nossa discussão sobre tomar emprestada a credibilidade alheia? Bem, o artigo, intitulado “Fossils Evidences (Paleontology) Opposite to Darwin’s Theory” conta com um segundo autor, Charles D. Michener, da University of Kansas, um renomado biólogo evolucionário. Em 2010, Michener foi laureado com o Hamilton Award, um importante reconhecimento pelas notáveis contribuições no campo da entomologia. Se você está afiado no inglês, deve ter notado que o título do artigo não parece compatível com a posição de um sujeito como Michner e, de fato, não é. Michener nem mesmo conhece Abdul e somente tomou conhecimento do conteúdo do artigo após a publicação. Naturalmente, lamentou o incidente e exigiu que seu nome fosse desvinculado da publicação e a revista retratou o erro retirando o artigo.

O uso da credibilidade de cientistas respeitados para endossar teorias da conspiração ou pseudocientíficas não é novidade em debates públicos ou meios de comunicação de massa, mas salta os olhos que isto tenha chegado aos periódicos especializados. Como o periódico Journal of Biology and Life Science aceitou um trabalho que assevera coisas como: “A teoria de Darwin é um tema central da biologia e de todas as teorias da evolução” ou “Evidências fósseis provam que humanos não descendem/evoluíram de macacos inferiores” ou ainda “a paleontologia não provê evidências diretas, convincentes, fortes e verificáveis para a evolução bem como evidências fósseis são opostas à teoria de Darwin.

Quantas teorias da evolução você conhece? Parece que Abdul tem algumas concorrentes para a teoria da evolução. Infelizmente, seu obscurantismo não permitiu a revelação de que alternativas seriam estas, embora tenhamos nossas suspeitas. A crítica à ideia de que “não evoluímos de macacos” é uma expressão gritante da incompreensão sobre evolução. O termo árvore da vida não é mais que uma alegoria para representar as relações que podem ser verticais ou horizontais, como tem demonstrado a genética de microrganismos e, mais recentemente, a demonstração da transferência horizontal de genes entre bactérias e eucariotos. Abdul ignora o fato de que fósseis são registros randômicos e pouco prováveis tanto em sua formação quanto na descoberta. Por isso não faz sentido exigir um registro fóssil com tamanho grau de completude. Fazer esta exigência é equivalente a pedir um álbum fotográfico do seu rosto com frames a cada minuto ao longo de toda a sua vida para provar que você envelheceu e não foi criado da maneira que aparenta agora.

Referência
Ivanoransky. Entomologist surprised to find name on now – retracted paper alleging fossils oppose Darwin’s theory of evolution. Retraction Watch. March 24, 2014.
Russell F. Doolittle. Searching for the common ancestor. Res. Microbiol. 151:85-89, 2000.
Patrick J. Keeling, Jeffrey D. Palmer. Horizontal gene transfer in eukaryotic evolution. Nature Reviews Genetics. 9:605-618, 2008.

 Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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