Cadernos de microbiologia

Cura da AIDS ou sensacionalismo barato?

Em 05 de novembro de 2014, o portal de notícias G1 divulgou a matéria intitulada “Reação do corpo abre perspectiva para a cura da AIDS, revela estudo.” A chamada da matéria dizia “integração do vírus ao DNA humano pode inativar o vírus HIV. Ele fica incapaz de se multiplicar, mas permanece presente no DNA.” A matéria é bastante interessante e, para os padrões do noticiário, até foi escrita com alguma prudência, mas não foi capaz de explorar o tema da maneira apropriada. O título e a chamada, por outro lado, não poderiam ser mais esdrúxulos. O trabalho publicado no periódico científico Clinical Microbiology and Infection[1] em novembro de 2014 pelo grupo do prestigiado francês Didier Raoult não fala de perspectiva de cura da doença por alguma terapia nova ou coisa do tipo. Na realidade, o termo cura poderia ser facilmente substituído por adaptação em termos evolutivos. Naturalmente, seria esperar demais que uma matéria jornalística não especializada tivesse tamanho senso crítico.

A matéria faz parecer que a descoberta do grupo realmente levantou alguma perspectiva de cura. O que de fato o trabalho mostra é uma adaptação entre parasita e hospedeiro. Dessas que estão acontecendo a todo momento em nosso organismo e nem nos damos conta. Temos uma tonelada de material genético literalmente viral no nosso genoma. Além do título inapropriado, o texto não discutiu os aspectos mais interessantes da matéria. Basta dar uma rápida olhada na trajetória de Raoult e seu grupo para notar que a temática evolução é parte indissociável do trabalho produzido por eles. O laboratório de Raoult tem importantes contribuições no campo da paleomicrobiologia, onde desenvolveram uma técnica para extrair DNA da pupa dental. Isto permitiu identificar a origem de diversas pragas que assolaram a humanidade, tais como a praga de Justiniano I no século VI e a peste negra no século XIV, ambas causadas pela bactéria Yersinia pestis orientalis. O grupo tem ainda contribuído com a prospecção da biodiversidade de microrganismos que compõem a microbiota humana usando uma abordagem inovadora, que chamaram culturômica (Cf. o post Responsabolômica!). Além disso, o grupo de Didier Raoult descreveu em 1992 o maior vírus até então conhecido, os chamados Mimivírus. Você pode ler mais sobre os vírus gigantes no blog Meio de Cultura.

Como se vê, havia muito para se explorar sobre o grupo envolvido na matéria, mas nada disso foi dito. A pesquisa que foi divulgada mostrava que dois pacientes humanos se adaptaram a uma cepa do vírus HIV, tornando-se inumes à doença causada pelo invasor. Este fenômeno é bastante natural resguardadas as proporções, afinal o estudo envolveu 1700 indivíduos infectados e destes apenas dois tinham sofrido a adaptação. O mecanismo descrito no estudo também não é novo como fez parecer o noticiário. Existem trabalhos muito mais antigos que relatam este mecanismo em diversos modelos, como foi revisado por Michael Malim do King’s College de Londres.[2]

Tabela de códons. Atente para o último quadrante superior direito.

O mecanismo é bem interessante. Para entendê-lo precisamos lembrar da tabela de códons. Essa aqui ao lado que mostra quais são as tríades de bases no mRNA que codificam cada aminoácido. A frequência de mutação na primeira base (letra em vermelho) é pequena, sendo mais comum a mutação na terceira posição (letra em verde). As células lidam bem com essas frequências de mutação dada a degeneração do código. Observe o último quadrante inferior esquerdo e note que uma eventual mutação na terceira posição não afetaria o aminoácido traduzido. Em alguns casos, contudo, a mutação na terceira posição pode afetar o produto gênico. Observe agora o último quadrante superior direito e note que a diferença entre um códon para o aminoácido triptofano e um códon que sinaliza a interrupção da tradução (stop codon) está na terceira posição. Enquanto um códon UGG adiciona um triptofano, um UGA interrompe a tradução.

Há algum tempo sabemos que o genoma humano codifica, pelo menos, oito enzimas capazes de promover esse tipo de mutação que adiciona um códon de parada no lugar do triptofano. Chamamos essas enzimas de APOBEC (e.g., APOBEC3G, APOBEC3B, APOBEC3F). No caso do HIV-1, as APOBEC substituem um C por um U na fita de RNA do vírus, como é necessário fazer a transcrição reversa para um cDNA (DNA complementar) para integrar o vírus no genoma da célula do hospedeiro, a mutação se refletirá na troca de G por um A na fita de cDNA nascente.

Trata-se de uma engenhosa maquinaria celular para proteger o genoma da invasão por DNA exógeno. Mas se toda essa engenhoca funciona assim, como é que o vírus ainda consegue afetar tanta gente. Bem, digamos que vírus também são máquinas bastante engenhosas. O HIV-1 possui uma proteína chamada Vif que protege o vírus da ação da APOBEC. A proteína Vif interage com a APOBEC induzindo a degradação desta enzima. É aí que o trabalho do grupo de Didier fica interessante. Em meio a 1700 indivíduos, foram encontradas duas pessoas que são capazes de controlar a infecção pelo vírus usando a via APOBEC. Por esta razão o grupo usou o termo “endogenização” para significar que o DNA viral tornou-se inócuo para o hospedeiro em dois modestos, mas importantes, casos. Conforme o título, em português, “Infecção pelo HIV em rota para endogenização: dois casos.” Nada de cura, nem uma menção à terapia, apenas adaptação evolutiva. Atualmente, o último lugar onde alguém deveria buscar informação científica é nos meios de comunicação de massas.

Referências

[1] Cf. Colson P, Ravaux I, Tamalet C, Glazunova O, Baptiste E, Chabriere E, Wiedemann A, Lacabaratz C, Chefrour M, Picard C, Stein A, Levy Y, Raoult D. HIV infection en route to endogenization: two cases. Clinical Microbiology and Infection, 2014. DOI: 10.1111/1469-0691.12807.

[2] Cf. Malin MH. Natural resistance to HIV infection: The Vif-APOBEC interaction. C. R. Biologies 392:871-875, 2006. Ver também a revisão de Goila-Gaur R, Strebel K. HIV-I Vif, APOBEC, and intrinsic Immunity. Retrovirolgy, 5:51, 2008.

 Licença Creative Commons
Este texto de Alison Chaves está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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